É uma figura incontornável da culinária e da televisão portuguesas.
Quando eu era adolescente seguia os seus programas na televisão…
M.L.M. Isso é uma maneira elegante de me dizer que sou velha! E aprendeu alguma coisa?
Aí é que está o problema: seguia os programas porque a senhora era uma grande comunicadora, mas aprendi muito pouco…
M.L.M. Mas eu ensinava a fazer as coisas!
Não dava atenção ao que ensinava: dava mais atenção à forma como o fazia.
M.L.M. É que antes de ir para a televisão eu era professora e não fui “representar”, fui fazer aquilo que já fazia.
Mas representara, antes…
M.L.M. Isso é outra história! Costumava dizer que fui para a televisão pela mão de Molière. Eu era professora de trabalhos manuais no Liceu Francês, e fizemos uma peça, todos os professores. A televisão foi lá e achou-me graça. Foi assim.
A sua primeira fase na televisão não era de receitas portuguesas?
M.L.M. Aí temos de ir mais devagar. Não era inteiramente de receitas portuguesas. Eu fazia as receitas que toda a gente faz, mas como estava num meio francês, fazia muitas coisas da cozinha francesa que, para além de não terem idade, continuam a ser muito boas. E os portugueses, e muito bem, começaram a reclamar mais receitas nacionais. Comecei então a fazer a cozinha portuguesa que via fazer em casa da minha mãe, mas o público não ficava satisfeito! Vinham sempre reclamar que a tia não fazia assim, a prima não fazia assim… Tive então a ideia de fazer um concurso em que eram as pessoas que me mandavam as receitas (cada mês de uma província), e as que ganhassem iam à televisão mostrar como se fazia.
Reuniu, então, uma quantidade enorme de receitas…
M.L.M. Tenho um acervo enorme de receitas da cozinha portuguesa. Estou agora, de resto, a digitalizá-las para as oferecer à Associação de Cozinheiros.
De alguma região nacional se pode dizer que tem uma cozinha pobre?
M.L.M. Isso é uma questão de gosto. Se me pergunta de qual eu gosto mais, respondo-lhe de caras que é da alentejana. Em primeiro lugar, por ser a nossa maior extensão territorial e, depois… porque eu sou alentejana! E porque a comida tem muito a ver com os afetos. O algarvio dir-lhe-á que não há papas como o xerém, e no entanto as papas foram as primeiras coisas que o Homem comeu cozinhado: os cereais moídos com água são a primeira coisa a que se pode chamar culinária.
Natural de Beja, era professora quando a convidaram para apresentar um programa de culinária na RTP. Nascia uma nova paixão na vida de Maria de Lourdes Modesto.
E nasce o seu primeiro livro, Cozinha Tradicional Portuguesa…
M.L.M. Recebi aquele material todo e quando o comecei a ler, vi que era extremamente complicado fazer um livro. E o Secretariado Nacional de Informação (SNI) queria pagá-lo! E eu a pensar como poderia fazê-lo… Andei vinte anos nisto. O Fernando Guedes, da Verbo, a querer o livro, o Moreira Baptista do SNI a querer o livro. E as pessoas a interessarem-se, porque perceberam que eu dava grande importância à cozinha portuguesa e sempre a perguntarem-me pelo livro.
Mas acabou por publicá-lo…
M.L.M. Ainda a semana passada estive a digitalizar uma província em as variantes de receitas de que buxos eram 14… Qual deles é que estava certo? Felizmente, na altura trabalhava na Fima-Lever e tinha uma linha direta. E a Lever fartou-se de pagar chamadas minhas para as senhoras a tirar dúvidas. E foi assim que o livro foi feito.
Já havia preocupações com aquilo a que hoje se chama comida saudável?
M.L.M. Os médicos dizem duas coisas: coma saudável, coma cozinha mediterrânica. Nós temos muito pouco de mediterrânicos… E, por outro lado, dizem-nos que devemos comer como os nossos antigos, como os nossos avós comiam. Acontece que não falam numa coisa que era muito importante na alimentação dos nossos antepassados, que era a fome. A fome também fazia bem. Não havia esta quantidade: era a sopa, mais rica ou mais pobre, e acabou. E uma peça de fruta. Parece que eles querem que comamos muitos legumes e, de facto, os antigos comiam muitos legumes porque não tinham outra coisa. Mas eu estou 100% de acordo com a prevenção alimentar. Que quer isto dizer? As coisas nas doses certas. Tudo se quer na devida conta.
A Cozinha Tradicional Portuguesa é uma verdadeira bíblia, ainda hoje considerada uma obra de referência sobre a identidade gastronómica e cultural do país.
Nunca abandonou a cozinha?
M.L.M. Agora sou cozinheira de caneta… Cozinho muito pouco, mas continuo a estudar. Mas gosto muito de comer, por isso tenho mais vinte quilos do que quando me via na televisão… Estou muito atenta à nova cozinha, que não é bem comida: onde é que se vai jantar depois daquilo? Tenho um livro do Adriá onde ele explica a sua filosofia e diz que é preciso ter boas bases. Em Portugal, há poucos que dominem a cozinha moderna, que mete muita Química.
Tem um prato preferido?
M.L.M. Tenho muitos! Uns são mais interessantes como, por exemplo, o caldo-verde. Onde é que essa rapaziada que anda aí com as vieiras, com o caviar, consegue fazer aquilo que faz o caldo-verde, que são só batatas, água e couves? Mas depende de muitas coisas: se me dessem uma açorda alentejana, que é das coisas de que mais gosto, em tempo de calor não vinha a propósito… Mas acho que o bacalhau à Brás é uma pequena maravilha e impôs-se como prato português. Um estrangeiro que o coma nunca mais o esquece.
A senhora recebeu uma Comenda…
M.L.M. Pois foi, mas ninguém me chama comendadora… Só vai servir para o meu obituário, mais nada…
Mas gostou de a ter recebido?
M.L.M. Foi o máximo! Adorei! Sobretudo porque a Comenda não foi só para mim, foi um aspeto importante da nossa cultura que foi reconhecido. Senti uma emoção muito grande: quando ia a subir as escadinhas para chegar ao pé do Jorge Sampaio, julguei que desmaiava…
Quando é que volta à televisão?
M.L.M. Sempre que me convidem e venha a propósito.
Um novo livro a quatro mãos
Maria de Lourdes Modesto e Gisela Miravent lançaram recentemente um livro em parceria, A Minha Primeira Cozinha Tradicional Portuguesa. Sobre o assunto, é Gisela quem aqui fala:
“Inicialmente, a ideia era comemorar os trinta anos da Cozinha Tradicional Portuguesa e como a Maria de Lourdes não queria mexer no livro e, por outro lado, eu gosto de escrever para miúdos, decidimos as duas fazer uma comemoração contando às crianças a história da cozinha tradicional. Quisemos tirar as imagens que o livro tinha, substituí-las por ilustrações, que são do Bernardo Carvalho, e acrescentar umas notas que a Maria de Lourdes escreveu e que são muito engraçadas. E tem umas receitas relativamente simples de fazer.”
Hoje, diz que cozinha mais com a caneta, pois continua a publicar livros sobre gastronomia, área que nunca deixou de estudar com paixão.
Receita de Maria de Lourdes Modesto
CALDO VERDE
Ingredientes
1,5 l de água
500 g de batatas
1 cebola
2 dentes de alho
50 g de chouriço de carne
1 dl de azeite
200 g de couve-galega cortada em caldo-verde
sal q.b.
Preparação
Em 1,5 l de água coza as batatas descascadas com a cebola, os dentes de alho, o chouriço e metade da porção do azeite.
Retire o chouriço, esmague o resto e leve novamente ao lume. Assim que ferver, junte a couve. Deixe cozer com o recipiente destapado só o tempo suficiente para a couve deixar de saber a cru. Retifique o sal e adicione o restante azeite.
Corte o chouriço em rodelas e distribua-as pelos pratos (ou tigelinhas) e regue com o caldo-verde.
NOTA: Esta receita faz parte de As Receitas Escolhidas de Maria de Lourdes Modesto, Verbo, nova edição revista e atualizada.
