Diogo Infante | Chef Continente
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Entrevistas

Diogo Infante

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"Atrevo-me a dizer que nunca fui tão feliz"

"Atrevo-me a dizer que nunca fui tão feliz"

Volta este mês ao Teatro Nacional D.Maria II [de que foi diretor artístico] na pele de Cyrano de Bergerac, ele próprio um homem da palavra. O que o atraiu neste projeto? Este é um projeto que surgiu de uma vontade minha e do João Mota de voltarmos a trabalhar juntos, depois da experiência feliz que foi o espetáculo Hamlet, no Teatro Maria Matos. Cyrano é um clássico da dramaturgia francesa e pertence àquela galeria de personagens míticas que um ator como eu, que gosta da palavra, tanto ambiciona fazer.

Como vai sentir o regresso ao D. Maria II, depois de uma saída conturbada.

D.I. Será certamente um regresso agradável a uma casa que conheço bem e onde tenho amigos e profissionais que muito admiro. A minha saída do D. Maria é um ato político, tem mais que ver com a falta de uma política cultural sustentada e a ausência de interlocutores habilitados, do que com a estrutura propriamente dita.

A sua vida profissional tem sido agitada, sobretudo devido ao projeto de que mais se falou no ano passado, a Ode Marítima. Como surgiu a ideia e que balanço faz desse trabalho?

D.I. O projeto nasceu de um convite que me foi dirigido pelo Festival das Artes – um evento que acontece todos os anos, em julho, na Quinta das Lágrimas, em Coimbra – para fazer uma leitura encenada da Ode Marítima. Desafiei a Natália Luiza e o João Gil para trabalharem comigo desde o início. A experiência foi tão intensa e marcante que decidimos fazer um espetáculo e levar a ideia mais longe, o que foi possível graças ao incondicional apoio do Montepio, em coprodução com o São Luiz Teatro Municipal e o Teatro Nacional S.João. O projeto acabou por superar largamente as nossas expectativas, considerando que se trata de um texto poético, em prosa, com 900 versos. Estreámos em Lisboa e Porto, e fizemos uma digressão nacional. Ao todo foram 38 espetáculos com mais de 13 mil espectadores. Este foi provavelmente o projeto mais desafiante e difícil que tive como ator, mas a recetividade e entusiasmo do público têm sido muito gratificantes e compensado todo o esforço.

Esse poema de Álvaro de Campos tem mais de 7 300 palavras. Como se preparou para um texto deste tamanho?

D.I. Como se de um atleta se tratasse. O plano de treino foi faseado e visou aumentar a minha resistência física, o controlo do texto e a energia emocional. Começámos pela análise do texto e pela sua divisão em partes, depois estive três semanas a decorá-lo e mais três semanas para me apropriar dele, para torná-lo meu, por dentro.

Vai apresentar a Ode no Japão, Coreia, Brasil, Estados Unidos... Como consegue isso? Um patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura?

D.I. Sendo proativos e levando pessoas com responsabilidades em áreas culturais, nomeadamente no que à língua portuguesa diz respeito, a acreditarem no espetáculo e no seu
potencial de internacionalização. Conseguimos o apoio do Instituto Camões e da casa Fernando Pessoa e estabelecemos contactos com vários teatros e centros de estudo da língua portuguesa espalhados pelo mundo, que mostraram interesse em nos receber. Fernando Pessoa é um autor muito traduzido e estudado, o que aumenta a curiosidade em relação ao espetáculo, apesar de ser em português, mas esta limitação será atenuada com legendas sempre que necessário. O Brasil é um outro mercado que queremos explorar, porque eles adoram Pessoa, pelo que estamos a trabalhar na possibilidade de levar a Ode a várias cidades brasileiras.

Mas não se ficou por aqui no ano que passou: como foi levar o Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira, a algumas salas mas também às escolas?

D.I. Tem sido uma experiência fantástica.Professores e alunos de Português têm assistido aos recitais que tenho feito um pouco por todo o país e têm manifestado um enorme apreço pela iniciativa. Sem dúvida que assistir ao recital facilita a vida a quem tem que trabalhar o texto na aula, sobretudo porque sendo um sermão, foi escrito para ser dito. Pela minha parte deleito-me com as palavras do Padre António Vieira e com a atualidade das críticas sociais e políticas deste texto alegórico!

Depois de alguns anos intensos em televisão, tem estado menos ativo neste canal de comunicação. Vai continuar assim?

D.I. Gosto que a minha participação na televisão seja intermitente. Isso significa que procuro o melhor de dois mundos, por um lado dar a conhecer o meu trabalho às gerações mais novas e por outro esperar que a sua curiosidade e interesse os consiga mobilizar a vir-nos ver ao vivo no teatro.

Foi interessante tentar pôr os portugueses a falar bem português, no Cuidado com a Língua?

D.I. Foram oito séries ao longo de cinco anos. Penso que o formato do programa era muito feliz, já que conseguia conciliar a vertente de entretenimento com a de serviço público e ainda por cima com audiências acima da média. Tenho um enorme prazer em estar envolvido em iniciativas que promovam e defendam o inestimável valor da língua portuguesa.

Aceita calmamente o Acordo Ortográfico?

D.I. Calmamente, não! Na verdade tenho sérias reservas relativamente a este Acordo. Percebo que a língua é um organismo vivo em constante evolução e transformação, mas ainda não consegui perceber que interesses é que este acordo serve e qual a sua pertinência. Não o adotei ainda.

Participou num filme dinamarquês rodado em Malta, All Inclusive, que estreou no dia de Natal na Dinamarca. Fale-nos um pouco dessa sua última incursão pelo cinema.

D.I. Foi uma aventura inesperada que me levou até Malta duas semanas para interpretar um
latino num filme dinamarquês. Contracenei com a extraordinária atriz Bodil Jørgensen e diverti-me imenso. O filme é uma comédia/drama familiar, num registo deliciosamente desconcertante. Espero que também passe em Portugal.

Como se mantém em forma física para poder enfrentar tanta atividade?

D.I. Mantenho-me fisicamente ativo. Jogo ténis duas/três vezes por semana e monto a cavalo três a quatro vezes por semana. Procuro ter uma alimentação saudável e equilibrada.

Que balanço faz dos seus 25 anos de carreira?

D.I. Nunca esperei fazer tanta coisa nem ter tanto prazer. Sinto-me um verdadeiro sortudo. Tenho consciência que procurei sempre tirar partido das oportunidades que tive mas, por outro lado, tento não levar nada disto muito a sério. Procuro não pensar muito em tudo o que já fiz, mas sobretudo no que ainda tenho para fazer.

É um homem calmo, em paz com a vida e com a profissão?

D.I. Estou numa fase particularmente serena da minha vida. Atrevo-me a dizer que nunca fui tão feliz!

O Diogo é um pai relativamente recente. Como tem sido essa experiência?

D.I. Profundamente recompensadora. Adoro ser pai!

Como escreveu Fernando Pessoa: “O melhor do mundo são as crianças”?

D.I. As crianças também crescem e tornam-se adultos que geram mais crianças. O melhor
do mundo, para mim, é a possibilidade de aproveitarmos intensamente a vida a cada momento, em toda a sua plenitude e de não perdermos a capacidade de sorrir e de amar, e sermos gente com vontade de ser gente. Nada nem ninguém nos faz sentir assim como uma criança...

Que coisas gosta de fazer com o seu filho?

D.I. Adoro estar com ele no sofá, com um braço ou uma perna enroscada na minha. Adoro ver filmes e espetáculos e ouvir música com ele. Adoro correr e jogar à bola, ao disco voador e pingue-pongue, e adoro ouvi-lo contar histórias e vê-lo a crescer e a aprender a ser gente. Adoro ver o mundo através dos seus olhos e ouvir as suas gargalhadas de felicidade.

É fã da gastronomia portuguesa?

D.I. Adoro a gastronomia portuguesa. As digressões teatrais são oportunidades para verdadeiras viagens gastronómicas à procura de novos restaurantes ou da melhor tasca local. E come-se tão bem no nosso país!

Qual o seu prato favorito?

D.I. Folhado de bacalhau.

Diogo Infante num minuto

Qual é a sua maior qualidade? Sou generoso. E não me levo muito a sério.

E o seu maior defeito? Impaciente. Quero tudo para ontem e de preferência bem feito.

O que é que mais aprecia nos seus amigos? A sua amizade incondicional. O estarem lá sempre que é preciso.

Qual é a sua ideia de felicidade? Estar com a família ao domingo, arrochados no sofá, a comer chocolates e a ver filmes de ação!

E o que seria a maior das tragédias? Esquecer-me que tinha uma matiné e não aparecer...

Quem gostaria de ser, se não fosse você mesmo? George Clooney. Acho que está muito bem conservado e agora até se diz que pode chegar a presidente dos Estados Unidos!

Os seus autores preferidos? Shakespeare, Tchekhov, Tennessee Williams.

Quem são os seus heróis de ficção? Sempre gostei do Super-Homem. Suponho porque era super e podia voar...

Quem são os seus heróis e heroínas na vida real? Aqueles que abnegadamente dedicam a sua vida a tornar a vida dos outros um pouco melhor.

A sua palavra favorita? Amor.

O que mais detesta? A estupidez.

Qual é o seu lema de vida? Não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti...

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