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Entrevistas

Raquel Tavares

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Em miúda queria ser bailarina e repórter de guerra

O disco Raquel surge oito anos depois de Bairro. Porquê uma pausa tão grande?

R.T. Por uma questão de necessidade, pessoal e artística. Numa altura em que o Fado está numa fase tão boa, com tanta coisa a acontecer, senti que precisava de me atualizar. Porque como canto há mais de 25 anos (tenho 32), cresci num meio muito tradicional a que alguns chamam “purista” e a dada altura, quando percebi como estava a indústria, senti que estava um bocadinho aquém daquilo que essa indústria esperava.

Quando fala nesse sentir-se aquém, está a referir-se aos novos nomes que entretanto foram surgindo?
R.T. Claramente! E ainda bem que eles apareceram, porque o Fado está numa fase ótima. Há uns que são mais fadistas do que outros, porque cantam há mais tempo e têm outros alicerces, outros que se apaixonaram pelo Fado depois da morte da Amália – que me parece que foi um pontapé de saída para o despertar das pessoas.

Acha que as duas coisas estão relacionadas?
R.T. Não tenho dúvida. Há um boom que coincide com essa data infeliz.

Voltando aos oito anos de interregno…
R.T. Basicamente porque precisava de mais ferramentas, de crescer, no fundo. De amadurecer enquanto intérprete, enquanto mulher… Comecei tudo muito cedo: a cantar muito cedo, a conhecer a vida muito cedo, a virar-me sozinha muito cedo e isso envelheceu-me um bocadinho…

Não envelheceu nada!
R.T. [risos] Ah, envelheci, envelheci… E quando olhei para a nova geração fadista, parecia que não estava integrada, que não fazia parte daquela geração quando tinha 20 e poucos anos. Durante esses oito anos nunca parei de cantar, mas esse tempo fez-me sair da minha zona de conforto, fez-me viajar (que é o maior veículo de amadurecimento), fez-me ler, obrigou-me a partilhar palcos com outras pessoas e a perceber que, afinal, eu não era só fadista. Antes de ser fadista, se calhar, sou cantora: a minha identidade interpretativa é que é o Fado e que eu não escolhi!

E é por ser, antes de tudo, uma cantora, que no Raquel tem uma canção de Caetano Veloso…
R.T. Naturalmente! Entre outros e eu adoraria gravar outros autores… Tenho no disco músicas de António Zambujo, do Tiago Bettencourt, do Miguel Araújo... E a todos eles pedi que me escrevessem canções e não fados. Porque pensei: “Tenho 30 anos, não preciso de provar a ninguém que sou fadista.” E digo isto com alguma vaidade: porque não preciso! Porque tenho o aval dos mais velhos com quem fui criada, pessoas com quem aprendi tudo o que sei enquanto fadista, nomes como Fernando Maurício, Ada de Castro, Maria da Fé, Beatriz da Conceição, Anita Guerreiro, António Rocha, Carlos do Carmo – todos os antigos. Tenho o aval dessas pessoas, não preciso de lhes provar nada porque elas acreditam em mim.

Portanto, houve uma viragem.
R.T. Claro. Já prestei a minha homenagem ao Fado, já defendi o Fado tradicional – e defendi-o durante 20 anos – comprei muita guerra por causa dele e, portanto, já chega.
Agora vou fazer o que me apetece. Com 32 anos já posso fazer o que me apetece, não acha? A única coisa que me preocupou foi pensar: “E as pessoas que gostavam de mim como fadista, que me acarinharam?” E as reações têm sido surpreendentes. Tenho conseguido conquistar um outro grupo de pessoas e aquelas que já gostavam de mim estão a tentar “perceber” esta nova Raquel e… “estranha-se mas depois entranha-se”, não é?
E o que eu estou a fazer ali é de verdade.

Sente-se feliz?
R.T. Completamente. Vou dizer-lhe o seguinte: um dia ia a caminho da praia, a ouvir uma dessas rádios da moda.
E de repente começa a tocar o Desfado, da Ana Moura. E eu fiquei tão feliz por ouvir a minha amiga Ana a passar numa rádio de jovens! Tal como me sinto feliz quando ouço uma música minha a passar na rádio.

Durante este hiato, esteve no Brasil durante bastante tempo. Veio de lá uma outra Raquel?
R.T. Completamente. Mudei em tudo. Se não fosse o Brasil, provavelmente continuaria a ser uma pessoa preconceituosa comigo mesma. Porque fui eu quem criou uma série de estigmas em torno da minha condição fadista.
Fui eu quem me impus uma série de regras. Fui eu quem me tornou quase azeda a olhar para a nova geração, para a indústria fadista. E, repare, eu não acredito no Novo Fado ou no Fado Novo – para mim existe Fado e existe uma contemporaneidade natural na evolução da música, como existe em todas as músicas urbanas do mundo, do tango à morna, todas elas têm tido a sua evolução.
Porque não o Fado? A própria guitarra portuguesa evoluiu, antigamente só se tocava em dois tons. O Armandinho, que foi um grande músico, veio revolucionar o Fado e, na altura, foi crucificado. Como o Piazzolla no tango. E eu era assim antes de ir para o Brasil… E vim de lá com a capacidade de ver o copo meio cheio, em vez de meio vazio…

Tem nomes do Fado que não deixa de seguir?
R.T. Claro. Não deixo de seguir, de homenagear, de cantar.
Gravei neste disco a música do Fado Cravo do Alfredo Marceneiro, com versos de João Dias, uma criação da D. Beatriz da Conceição, a quem dediquei o meu disco. E dediquei-o a ela que, meses antes, me disse: “Formiga, não tenhas medo. Vai em frente.” E que infelizmente já não foi a tempo de ouvir o meu álbum.

Os seus concertos são alegres ou tristes?
R.T. Se os tivesse de avaliar, diria que são 50% de festa e 50% de Fado. Porque é assim que eu sou: agora estou muito bem-disposta, depois já não estou. E é surpreendente porque há pessoas que chegam ao fim dos concertos e me dizem que se divertiram muito, mas que também se fartaram de chorar.

Esteve no Caixa Alfama com os seus ténis.
R.T. Estive, pois! Algumas pessoas acharam muita graça. Depois tirei os ténis e calcei as chinelas aqui do bairro. Não quero chocar ninguém, é só que não me sinto confortável de saltos. Eu até ia calçar uns saltos, mas a Maria da Fé, que estava comigo no camarim, disse-me: “Ó filha, estás tão gira com esses ténis!” E se eu fosse de ténis?, perguntei eu. “Ó filha tu podes!” Se a D. Maria da Fé diz que eu posso, é porque posso – e fui.

Foi boa a sua experiência de entrar num programa televisivo de dança?
R.T. Em todos eles, dança, The Voice. O de dança foi por motivos pessoais, porque era o que eu mais queria ter sido na vida. Em miúda queria ser bailarina e repórter de guerra. A primeira como arte, a outra como profissão.

E gostou de participar?
R.T. Ouça, se me quer ver chorar fale-me de dança…

Daqui por um par de meses chega a época dos Santos Populares. O que representa isso para si?
R.T. Acho que é a altura do ano em que me sinto mais vaidosa por ser alfamense. Porque toda a gente vem para o meu bairro, mas eu é que sou daqui. Os Santos só têm um problema, que é eu não poder estender roupa durante um mês, por causa do cheiro a sardinha.
Gostava de mudar um bocadinho o conceito da música que se ouve durante os Santos Populares: menos “martelinhos” era bom, mas isso é uma coisa a resolver com a Junta.

Como se prepara fisicamente para um espetáculo de duas horas?
R.T. Está aqui o meu road manager e ele sabe o que eu faço para me preparar: absolutamente nada.

Nem um bocadinho de ginásio, de corrida?
R.T. Absolutamente nada…

E cuidados com a alimentação?
R.T. Não tenho nenhum. O único cuidado que tenho é dormir bem. Não bebo álcool e tento não beber coisas com gás.

Mas gosta de comer?
R.T. Ui, se gosto! Ainda há pouco comi uma feijoada de enchidos que trouxe de Vinhais, onde fui dar um concerto.

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