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Entrevistas

Nicholas Sparks

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O livro que estou a escrever começou em Portugal

Tem um tal êxito como escritor, por todo o mundo, que sempre que alguém fala consigo diz “é o meu autor preferido”, ou “li todos os seus livros”?
Não, nem toda a gente, longe disso! Mas de vez em quando aparecem pessoas que me dizem coisas desse género.

Não li todos os seus livros, mas li alguns…
E eu agradeço-lhe isso, porque só posso estar grato por cada pessoa que me lê.

Como é que uma pessoa que estudou Finanças troca isso pelos livros?
Eu era um leitor muito ávido, desde miúdo, e gostava de histórias boas, quer fossem de um livro, na televisão ou num filme. Quando tinha 19 anos e estava na faculdade escrevi o meu primeiro romance, mais para ver se era capaz. Era horrível e nunca foi publicado, só o escrevi para ver se conseguia chegar ao fim. Aos 22 escrevi outro romance e, também esse, nunca foi editado. Mas tinha percebido duas coisas: que era capaz de escrever uma história até ao fim e, também, que havia coisas naquele processo de que gostava. Mas percebi igualmente que aquilo não era coisa com a qual pudesse ganhar a vida…

Mas, como se sabe, não desistiu…
Não, de facto. Pela simples razão de que, ainda na universidade, tive uma disciplina maravilhosa chamada Ficção Americana desde 1950, em que li romances que tinham personagens muito fortes: Lolita, Uma Agulha num Palheiro, Artigo 22 ou O Homem Invisível. Todos os grandes clássicos. E fiquei tão impressionado com a força das vozes das personagens, que achei que era capaz de escrever sem ter aulas,sozinho: através da leitura e selecionando aquilo de que gostava e do que não gostava num romance. Por isso, comecei a escrever deitando um olho ao que eu achava que o autor fizera bem, para o meu gosto, e ao que fizera menos bem na
minha opinião. Isto é, fui vendo como esses autores tinham desenvolvido a personagem, como tinham criado um clima de tensão, etc.

E o que fez com essa aprendizagem?
Aos 28 anos decidi tentar de novo e dei-me três oportunidades. E se nenhum desses livros fosse publicado era sinal de que não estava destinado a ser escritor. Suporto o falhanço, só não queria desistir sem sentir que tinha tentado tudo.O primeiro desses três livros foi O Diário da Nossa Paixão… E cá estou 21 anos depois. Foi esse o caminho das Finanças para a escrita.

Portanto, agora não trata nem das finanças de sua casa?
Houve uma altura em que eu quis ser o melhor investidor e passei três anos a aprender o mundo dos negócios.

Uma das suas principais características é que é um escritor muito prolífico: dá ideia de que sempre que sai à rua, de manhã, lhe surge uma ideia.
[gargalhada] Dá essa ideia, não dá? Mas não é bem assim. A inspiração vem de diversas coisas e lugares e ocasiões. Com este último Só Nós Dois, por exemplo, comecei por ter uma ideia inicial: a de que seria uma história de pai e filha. Depois, ideia número dois, a de que não fomos feitos para estar sozinhos na vida, de que estamos melhor com alguém a nosso lado, especialmente em tempos difíceis. E neste livro vemos como ele é apoiado pelos pais, outras vezes pela irmã, por vezes pela filha, outras ainda pela relação romântica. Depois vem a ideia três: quem é Russell, que idade tem, qual a sua situação? Uma ideia vai levando a outra e elas vêm do meu passado, de coisas que leio, de notícias que vejo ou leio no jornal, de pessoas que vou encontrando ou, muito simplesmente, de coisas que me vêm à cabeça e cuja origem desconheço.

E como é que tudo isso se desenvolve até ter o esqueleto da história?
Dou-lhe um exemplo: o livro que estou a escrever começou aqui. Eu sabia que vinha a Portugal e, no meu segundo dia aqui em Lisboa, surgiu-me uma ideia e eu fiquei a saber como toda a história se iria desenvolver. E acho que vai ser uma grande surpresa para os leitores. Essa ideia pode, de resto, ter surgido do próprio ambiente deste hotel, muito bonito e relaxante.

Mas se tem tido este ritmo ao longo de 21 anos, quanto escreve por dia?
Todos os dias escrevo duas mil palavras. Acho um bom ritmo e toma-me umas cinco ou seis horas mas, se fizer as contas, são apenas 400 palavras por hora. Não é assim tanto, se considerarmos que sou um bom dactilógrafo: escrevo 40 palavras por minuto. Essencialmente, gasto cinco minutos em cada hora a escrever e os restantes 55 a corrigir e reescrever os primeiros cinco.

Creio que tem 11 dos seus livros adaptados ao cinema. É diferente ver as suas histórias no grande ecrã?
Sabe, eu rejeito centenas de ideias até chegar àquela que acho que vai dar um bom romance. São meses de trabalho até chegar ao ponto em que fico satisfeito, mas percebo que nem toda a gente lê e que prefere ir ver a história sob a forma de filme.

E participa na feitura do guião do romance que vai ser adaptado ao cinema?
Sempre, sempre. Por vezes escrevo eu próprio o argumento, outras colaboro nessa escrita, faço a edição do argumento.

Acha que tem havido uma mudança na sua forma de escrita?
Não, o processo de escrita mantém-se inalterado, mas acho que as minhas habilidades de escrita aumentaram. O que quero dizer é que podia escrever O Diário da Nossa Paixão hoje, mas não poderia ter escrito Só Nós Dois há dois anos, porque é demasiado complexo, tem muitas personagens. A minha ideia acerca de Só Nós Dois é que se trata deum livro mais duro.

Seria demasiado chamar a este seu livro uma tragédia grega? Porque a tragédia grega tem tudo, toda a gama de emoções, amor, o drama, até o riso.
Claro que sim. Por um lado, tento sempre que os meus romances sejam um murro no leitor. Quanto à tragédia grega, não me quero considerar um Sófocles ou um Ésquilo…

Talvez possa ser um Eurípedes…
Nem por sombras… Mas há caminhos num romance que exploram as emoções humanas e o principal desses caminhos acaba por ser o caminho da própria Literatura e eu sigo essa linha.

Faço esta comparação porque me parece que existe nos seus livros um fio condutor que nos leva à tragédia.
É verdade, boa observação. Mas há uma razão para isso: é que acho que todas as relações de amor humanas (e podem ser de amor para com os pais, com irmãos, etc.) terminam em tragédia, porque em todas elas alguém morre antes do outro. E mesmo que imaginemos que os dois morrem ao mesmo tempo, ainda assim será uma tragédia para aqueles que os conheciam. Eu sei que todos os livros soam a tragédia, mas são os dois lados da mesma moeda: sem um grande amor, não existe tragédia. Por outro lado, tento cobrir todas as emoções humanas e se não incluísse a fúria, o riso ou a tristeza, o romance perderia autenticidade, começaria a parecer uma fantasia.

Os seus livros, portanto, devem ter uma parte dramática, mas nunca melodramática?
Exatamente isso, eu não o diria melhor. Até porque há uma linha muito ténue entre o drama e o melodrama.

Alguma vez pensou em deixar os livros e passar a argumentista de filmes?
Não, nunca. Eu escrevo livros, é isso que faço, os argumentistas escrevem os argumentos dos filmes.

Em O Diário da Nossa Paixão há um narrador que, a dado ponto, diz qualquer coisa como isto: “os românticos chamar-lhe-iam uma história de amor e os cínicos uma tragédia”.
Não, não: é exatamente isso que o narrador diz.

Portanto, é de propósito?
Claro que há uma intenção naquilo que faço. A minha intenção, em cada história, é que o leitor sinta que pode viver mil vidas nas páginas que estão entre as capas. Mais uma vez, passar por muitas das emoções da vida. Sentir que viveram uma outra vida naquelas páginas. E, na minha opinião, esses livros tendem a ficar-nos na memória.

Há uma outra coisa que dizem aos seus leitores: a minha família diz “ah és tu que lês Nicholas Sparks!”…
risos] Agradeça por mim à sua família, porque é uma grande honra.

Como gostaria de ser recordado?
Depende: por quem? Gostava que os meus filhos merecordassem como um bom pai, que o meu irmão me recordasse como um bom irmão, que os meus leitores me recordassem como um bom escritor, que os meus pais me recordassem como um bom filho.

Cuida do seu físico?
Todos os dias faço exercício. Faço trabalho aeróbico, exercício de força e flexibilidade.

Preocupa-se com aquilo que come?
Estou sempre preocupado com aquilo que como! Eu acredito que aquilo que comemos é aquilo que somos.

Sabe cozinhar?
Claro que sim! Faço o melhor bife e o melhor hambúrguer dos Estados Unidos!

E pode dar a receita do seu bife? Adoro bifes!
Acho que podia, sim… Mas não, depois toda a gente estaria a fazer o meu bife.

Respostas Rápidas


Uma autor a que volta sempre: Stephen King. Essa foi fácil.
Um filme. Só um? Terá de ser O Diário da Nossa Paixão…
Um local paradisíaco: O O Paraíso.
Viagem de sonho: Seis semanas em África.
Livro de cabeceira: Sleeping Beauties, de Stephen e Owen King.
Quem gostaria de ser se não fosse Nicholas Sparks: Jesus, durante uns dias. Água transformada em vinho, casamentos, os miúdos deviam adorar ver-me a andar sobre as águas…
Palavra preferida: Okay.
Que defeito é mais fácil perdoar: Inaptidão.

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