Miguel Vieira | Chef Continente
Dificuldade:
Custo:
Tempo de Preparação:
Tipo de Refeição:
Ocasiões:
Chef:
Dieta:

Entrevistas

Miguel Vieira

home-slider-top

Designer comemorou 25 anos de carreira

“Os meus dotes culinários deixam demasiado a desejar”

Designer do casual chic em preto e branco, Miguel Vieira acaba de comemorar 25 anos de carreira e a moda continua a ser a faceta mais reconhecida das suas múltiplas atividades. Em matéria de gastronomia dá mais importância ao empratamento do que à própria comida e gostava de fazer uma dieta... para engordar.

Disse já que teve uma educação um pouco rígida. Isso deu-lhe a disciplina necessária para conseguir o império que hoje tem?

M.V. Deu-me disciplina, sim. Ou melhor, deu-me uma base de que me orgulho, porque me permitiu ser o homem que sou.

Essa educação contribuiu para aquilo que muitos designam como a sua “obsessão pela organização”?

M.V. Eventualmente... Sou uma pessoa que tem uma agenda complicada, viajo muito, passo muito tempo fora, por isso tenho de ter as coisas organizadas. Eu e as pessoas que trabalham comigo. Tenho tantas coisas para fazer no dia-a-dia que sem organização seria um caos.

Na sua juventude nunca imaginou vir a ser estilista?

M.V. Não, nunca me passou pela cabeça.

Queria ser o quê?

M.V. Acho que queria ser como todos os miúdos. Sonhei ser piloto de automóveis, astronauta… Mas moda, nunca.

Guarda recordações da sua infância?

M.V. Naturalmente. Especialmente a de ter tido uma infância muito feliz, junto da minha família. Lembro-me de ter feito as minhas traquinices, tal como qualquer outro miúdo.

Antes de ter chegado à moda teve diversas ocupações: controlo de qualidade têxtil foi uma delas.

M.V. Tirei o curso de controlador de qualidade, com especialização nos têxteis.

Daí como passa para a moda?

M.V. Depois desse curso abriam-se diversas possibilidades: mecânica, electrotecnia, têxteis. Optei por esta última e foi aí que me encontrei com a textura dos tecidos, como é que os tecidos funcionam e como são fabricados. Fui sempre um miúdo que desenhou relativamente bem, não especificamente moda, mas banda desenhada, bonecos e carros. E juntei as duas partes, os tecidos ao jeito para desenhar.

Esse jeito para desenhar está ligado ao curso de arquitetura que nunca tirou?

M.V. Esse é o curso que eu digo todos os anos que vou tirar… Digo sempre que o vou tirar em setembro e depois desisto em outubro. Mas era um curso que gostava de ter, não para exercer, mas
pela cultura que encerra, pela mística que tem, pela organização e pela sua metodologia. Mas a minha vida profissional não permite.

Continua a trabalhar na terra onde nasceu, São João da Madeira. Nunca sentiu necessidade de mudar?

M.V. Quando comecei, há 25 anos, muitas pessoas me disseram que devia ir para Lisboa ou para o Porto. Mas eu fiz sempre finca-pé quanto a isso, independentemente de o processo ser mais moroso, porque naquela altura todos os meios de comunicação social se encontravam em Lisboa e isso dificultava o eu mostrar o meu trabalho. Mas lutei contra esse revés e, hoje em dia, São João da Madeira é um local onde chegam pessoas de todo o mundo para fazerem trabalhos sobre mim.

O mundo, hoje, é pequeno…

M.V.  O mundo é demasiado pequeno e uma coleção minha não pode ser pensada em termos de Portugal.

“Acho que só faz sentido para uma marca e para um criador pensar em termos internacionais.”

Porque a maioria do seu trabalho é vendido no estrangeiro?

M.V. Exato. Vendo no estrangeiro cerca de 80% da minha produção.

Qual o país onde mais vende?

M.V. São vários. Quando uma pessoa apresenta uma coleção no estrangeiro, o que já faço há mais de 15 anos, e está numa feira internacional, isso significa que aparece gente de todos os países, muitas delas vindas de cidades que eu próprio desconheço. Vou-lhe dar um exemplo: as minhas coleções estão em quatro pontos de venda no Japão, mas o país tem um milhão de lojas. Logo, não é provável que se chegar ao Japão e perguntar por Miguel Vieira, que me conheçam…

Essa exportação é boa para a marca?

M.V. Acho que só faz sentido para uma marca e para um criador pensar em termos internacionais. Um estilista de Itália não pode pensar só em Itália, e um francês não pode pensar apenas em França. Uma coleção tem de ser pensada em termos globais e não podemos esquecer que quando apresento na Europa uma coleção outono-inverno, no Brasil ou Argentina é verão. Tenho de pensar nas mulheres japonesas, que são mais baixas, mas também nas australianas, que são mais altas. Que existem mulheres brancas, mas também pretas. Tudo isso tem influência nas minhas coleções.

E essas coleções são obviamente diferentes?

M.V. Às vezes pode ser uma questão de materiais: a coleção terá pelos para os países mais frios, mas tem de ter peças leves para as zonas mais quentes, mas o tema mantém-se rigorosamente igual, só que é abordado de maneira diferente.

Há cerca de dois anos que tem dupla nacionalidade, portuguesa e brasileira. Porque a sua mãe era brasileira?

M.V. Por um lado, porque gostava de fazer este gosto à minha mãe. Por outro, porque acho que a São Paulo Fashion Week é uma das mais bem organizadas do mundo. E, finalmente, porque estamos a pensar em abrir a Miguel Vieira Brasil.

As suas coleções são de luxo. Num momento de crise económica tem sentido os seus efeitos?

M.V. Um não redondo. Parece paradoxal… Mas eu não sou contra os outros tipos de mercado, acho que tem de haver mercados para todas as pessoas, para todos os preços. Mas eu escolhi este segmento porque dou valor aos materiais, matéria-prima e acessórios.

Fez as suas Bodas de Prata recentemente. Como definiria as etapas desses 25 anos?

M.V. Quando abracei esta área, foi como se tivesse aberto uma porta que dava para uma escadaria enorme. Subi degrau a degrau e acho que já devo ter subido um quarto dessa escadaria. Ainda me falta muito para atingir seja o que for, mas cada um dos degraus foram etapas importantes porque me fui tornando mais autónomo. Dependo de outros apenas em 10% do que apresento, porque não tenho maquilhagem nem meias de senhora: esses são os 10% que não são meus.

Para chegar ao seu nível teve de prescindir de muita coisa?

M.V. Prescindi de imensas coisas. Abdiquei do meu tempo, de horas de sono, de férias, de muita, muita coisa. Esta profissão, vista de fora, é muito glamourosa, muito mediática. Mas exige um grande esforço e na maior parte do tempo estamos com três coleções em simultâneo.

Desenhar um vestido é como começar a escrever um livro?

M.V. É exatamente a mesma coisa, porque começam os dois da mesma maneira: com uma página em branco.

Há diferenças no seu ramo entre o que se faz hoje e o que se fazia há 25 anos?

M.V. Muitas! Portugal não é um país com tradição de moda. Eu e alguns colegas somos a primeira geração de estilistas. Havia cabeleireiros e as agências de moda davam os primeiros passos, mas era tudo um bocadinho primário. Quando se precisava de um manequim não se ia a uma agência, o manequim não tinha book, não tinha composite, não tinha seguro… E não havia maquilhadores de moda, cabeleireiros (muitas vezes eram as nossas mães e avós…). Nesse sentido, Portugal evoluiu muito. E espero que a nova geração aproveite muito bem este caminho que, em diversas áreas, foi feito.

Ao longo do tempo recebeu inúmeros prémios, nomeadamente a Comenda do Infante D. Henrique. Dá importância a todos eles?

M.V. Mentiria se dissesse que não… Todos eles são uma responsabilidade mas, acima de tudo, esses prémios são para a equipa que me rodeia, não são apenas meus.

A bem dizer devíamos estar a tratá-lo por comendador…

M.V. Não… Miguel Vieira está muito bem…

Um dos seus sonhos é ter um hotel design…

M.V. É um sonho antigo, sim… Porque isso é o culminar de tudo o que faço ou gosto: a arquitetura do edifício, o design de interiores, as fardas dos funcionários, os talheres, os pratos.

Consta que tem uma tatuagem em que se lê “Fabricado em Portugal”.

M.V. É verdade. E com muito orgulho. E não é Made, é Fabricado, mesmo. Tal como as minhas peças, que vão para todo o mundo, levam a etiqueta “Fabricado em Portugal”.

A sua criatividade, que se espalha por tantas áreas, também se revela na cozinha?

M.V. Infelizmente, não… Eu como porque sou humano e sou obrigado a comer… Se calhar dou mais importância à forma como se apresenta um prato do que à própria comida. Os meus dotes culinários deixam demasiado a desejar!

Mas tem pratos favoritos?

M.V. Claro que sim! Gosto muito de cozido à portuguesa, de feijoada, mas também gosto de cozinha de fusão e gourmet.

Preocupa-se com a comida saudável?

M.V. Nisso eu sou um muito mau exemplo. O que posso dizer é que se há muita gente que faz dieta para emagrecer, eu precisava de fazer dieta para engordar…

Miguel Vieira num minuto

Restaurante preferido. O KAÁ de São Paulo, que é um restaurante que ganhou o prémio da revista Wallpaper.

E um chef? O meu homónimo Miguel Vieira, que ganhou uma estrela Michelin no restaurante Costes, em Budapeste.

Quem gostaria de ter à sua mesa para jantar? Um colega meu, Tom Ford. Era capaz de ser uma boa tertúlia.

Para que personalidade gostaria de desenhar um vestido ou um fato? Para todas! Ninguém em particular.

Mais entrevistas