Margarida Pinto Correia | Chef Continente
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Entrevistas

Margarida Pinto Correia

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Administradora executiva da Fundação do Gil

“A minha cozinha é mais misturar coisas e sabores”

Continua a falar com a velocidade, o entusiasmo e o sorriso nos olhos que se lhe conhecem desde sempre. O Gil deu-lhe notoriedade e ela deu brilho ao Gil. E confessa que cria defesas e que o carro é um abrigo…

Ouvimos falar muito da Casa do Gil, mas depois o que se descobre na Internet é a Fundação do Gil. São uma e a mesma coisa?

M.P.C. Não. A Fundação é o nome desta instituição que foi criada no pós-Expo’98 para capitalizar a mascote da Expo, o Gil, que tinha uma relação de afeto e credibilidade junto das famílias que era boa em termos de merchandising e de fazer dinheiro para aplicar nalgum projeto. A Parque Expo, felizmente, achou que devia ser algo social e não comercial. O António Mega Ferreira e o Guilherme Magalhães pensaram no que o Estado estaria a necessitar, consultaram o ministro da Solidariedade Social, que era o Ferro Rodrigues, e este disse-lhes que havia uma coisa que não estava a ser coberta: o apoio pediátrico e social à criança abandonada ou com necessidades sociais nos nossos hospitais.

As famílias esquecem-se das crianças nos hospitais?

M.P.C. Não exatamente: não esquecem, mas deixar, deixam… Há gente para tudo. É que se há coisa que aqui temos de aplicar diariamente é a capacidade de não julgar nem rotular o que parece. Na Fundação do Gil, ao longo dos anos, foram-se criando vários projetos, como o Dia do Gil (que distribui estímulos emocionais por mais de seis mil crianças por ano dinamizados exclusivamente por voluntários por nós formados), a Casa do Gil e um subjacente a todos os outros a que chamamos Saúde em Família e que consiste em um hospital nos pedir ajuda para um caso específico – o caso da criança que se tivesse uma cadeira de rodas podia ir para casa, ou o da outra que precisa de obras em casa, ou que necessita de legalizar o pai para poder ficar a viver com ele.

Na Fundação do Gil, ao longo dos anos, foram-se criando vários projetos, como um a que nós hoje chamamos Saúde em Família

Mas os hospitais sabem dessas condições acerca de uma determinada criança?

M.P.C. Não sabem necessariamente. O que os hospitais têm de diferente do que tinham há 13 anos, quando a Fundação foi criada, é que por lei têm de ter uma assistente social. Só que uma assistente social que esteja a cuidar de uma pediatria e que tenha 20 ou 30 crianças para cuidar, faz o seu horário das nove às cinco, o que não lhe permite sair e ir para o terreno fazer domicílios. Ao longo dos anos, para melhorar, criou-se uma lei que obrigou a que houvesse uma equipa de ação social em cada hospital. Depois veio uma leva para humanizar os hospitais. A Ana Jorge foi muito responsável por isso enquanto pediatra e depois enquanto ministra, ao pensarmos na criança como um todo e que a família esteja bem enquanto ela está a ser tratada.

Mas esse trabalho requer muito dinheiro. Por isso a vemos tanta vez na televisão?

M.P.C. Quando tenho uma plateia muito formal, costumo dizer que há uma condição sine qua non para trabalhar na Fundação, que é ter um Ph. D. em tenacidade. Depois faço sempre a minha pausa e digo: “Para quem não percebeu, é um doutoramento em cravanço”. É um bom desbloqueador de conversa. A Fundação, tal como existia e com este projeto-base, não era muito complicada de sustentar. Porque os hospitais lançam o repto (e não temos obrigação de cumprir, não somos Estado) e nós tentamos responder a todos. O que aconteceu em 2003 foi que a Parque Expo teve o seu primeiro downsizing e disse: “Levantem-se e andem”. E a Fundação teve, pela primeira vez, que pagar ordenados, água, luz, telefone e sustentar o próprio projeto.

Vem para a Fundação depois de sair da TV Guia.

M.P.C. Não foi assim tão linear. Quando me tinha voltado para a minha paixão pelo teatro, o Mega Ferreira vem ter comigo a dizer que precisava de mim na Fundação do Gil, porque a administradora se ia embora. Quando cheguei, percebi o que poderia ser feito. Criámos então, por exemplo, a UMAD (Unidade Móvel de Apoio ao Domicílio), que foi um repto lançado pelo Gomes Pedro, na altura diretor pediátrico do Hospital Sta. Maria. E em seis anos retirámos de quatro hospitais para suas casas seis mil crianças. E em relação a essas crianças fornecemos aos hospitais informações que eles nunca tinham tido, sobre a casa, a família, etc.

E quando surge a Casa do Gil?

M.P.C. Depois de criados todos estes projetos, aparece a Casa do Gil que é a ponta visível do iceberg: lutamos para que as crianças possam sair quando já têm alta clínica, mas não têm condições de voltar para casa. Então, vêm para a Casa do Gil, onde são vigiadas, onde a terapêutica é administrada, e vão ao hospital fazer a sua consulta.

Tudo isto exige muito de si…

M.P.C. Sim, de facto. E eu já não vou para nova. Mas é um desafio, tenho menos apoios e mais gente para ajudar. Tive esse problema ao longo de 2012, em que as empresas com que tínhamos protocolos começaram a fechar e a falir. Eu tinha um orçamento para cumprir, se não fosse a campanha dos cachecóis da Modalfa não tínhamos conseguido.

Desde pequenina que me enfiava na cozinha a inventar, com a Suzete, que era mais do que uma empregada, era uma segunda mãe. Ela passava-me as forminhas e deixava-me inventar queques de todos os tipos.

Liga-se às crianças que tem cá ou tem medo?

M.P.C. Não tenho medo, mas criei mecanismos de defesa. Às vezes ando de coração apertado e uso muito o carro para me esconder e chorar, mas entre Lisboa e Sintra tenho tempo para limpar a alma.

O que faz nos tempos (mais) livres?

M.P.C. Não tenho um padrão. Mas faço questão de fazer coisas com os meus filhos, de andar a explorar Portugal, de ir com eles ver exposições. 

Costuma cozinhar?

M.P.C. Levanto-me às 6.30 porque tenho de fazer os almoços para os mais novos levarem para a escola, que é a pior parte da lida doméstica. Mas cozinho, sim. Lá em casa somos muito diferentes na cozinha: o Luís [Represas] é um cozinheiro tradicional, faz um fantástico pargo assado no forno ou um cozido ou uma feijoada… Eu sou diferente, a minha cozinha é mais misturar coisas e sabores, sou inventora. Daí que muitas vezes o Luís me diga: “Então não havia nada em casa e tu fizeste jantar?!”

Mas nessa “mistura” tem cuidados em relação aos alimentos saudáveis?

M.P.C. Naturalmente! Até porque eu sou muito chata e ando sempre a ver o que que come aqui na Casa do Gil e lá em casa.

Em miúda interessava-se pelos tachos e panelas quando a sua mãe estava a cozinhar?

M.P.C. Por acaso, a minha mãe não tinha jeitinho nenhum para cozinhar. Aprendi a fazer ovos mexidos com o meu pai. E desde pequenina que me enfiava na cozinha a inventar, com a Suzete, que era mais do que uma empregada, era uma segunda mãe. Ela passava-me as forminhas e deixava-me inventar queques de todos os tipos.

Que ingredientes é que nunca podem faltar na sua despensa?

M.P.C. Nunca pode faltar sal. Fundamental! E depois, ervinhas, orégãos, azeite muito bom (de Tremez, de preferência), vinagre balsâmico, alecrim fresco, manjericão fresco, canela e gengibre q.b. 

E que utensílio de cozinha acha indispensável?

M.P.C. Há um utensílio que eu adoro e a que chamo “chupa-molhos” mas que se chama pipette oficialmente. Fundamental é também a colher de pau, uma faca afiada e o escorredor. Tudo o resto se inventa…

Margarida
Pinto Correia num minuto

Livro: "Dentro do Segredo - Viagem à Coreia do Norte", do José Luís Peixoto, que comprei para mim no Natal e que está na minha cabeceira.

Filme: Um filme que ninguém devia deixar de ver? "O Grande Peixe" ou outro qualquer do Tim Burton. Ou "One from the Heart", de Francis Ford Coppola.

Sítio para fuga: A Adraga, em Sintra.

Restaurante preferido: O restaurante das Azenhas do Mar ou o XL, em Lisboa.

Destino nacional: Vou agora a Foz Côa com os meninos, que ainda não viram as gravuras.

Prato preferido: Bacalhau à Brás.

A receita da Margarida

SALMÃO AO ALECRIM

Ingredientes

lombos congelados
de salmão (aprox. 2 por pessoa)

limão (sumo)

sal grosso

alecrim fresco

1 fio do melhor azeite do mundo

papel de prata
(alumínio)

Preparação

Unte uma travessa de forno e coloque os lombos congelados afastados uns dos outros. Dê uns ligeiros golpes nos lombos para absorver melhor o tempero e cozinhar com mais facilidade. 

Regue com o limão. Polvilhe com sal grosso e ramos de alecrim. 

Cubra a travessa com folha de papel de alumínio, para criar um forno interno, e ajudar ao resultado suculento com o aproveitamento de vapor.

Leve ao forno pré-aquecido. Ao fim de 10 minutos retire o papel e deixe cozinhar mais 5 a 10 minutos até ficarem dourados.

Retire e sirva de imediato

› Receita de O Melhor Livro de Culinária do Mundo (Pelo Menos Para Nós), que Margarida Pinto Correia editou com a Alexandra Sousa a favor da Fundação do Gil.

Com o apoio do Continente

Às compras para o Gil

“Nós tínhamos um apoio anual do Continente em dinheiro. Houve uma altura em que fomos ter com um dos administradores e fizemos-lhe uma proposta que achávamos boa para eles e para nós: converter o dinheiro em géneros. E abrimos uma conta online no site da Casa do Gil, onde está a nossa lista de compras semanal: quem for às compras ao Continente online [www.continente.pt] pode contribuir para o carrinho do Gil. Mas se por hipótese os clientes online não adquirirem nada para o nosso carrinho ou comprarem pouco, o Continente enche-o na mesma. E tem sido assim desde 2007: todas as quintas-feiras a carrinha do Continente está a descarregar à nossa porta a lista de compras que fizemos. Isto é, não há o perigo de recebermos 500 kg de bananas e um de arroz…”

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