Luísa Castel-Branco | Chef Continente
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Entrevistas

Luísa Castel-Branco

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A cozinha é um ato de amor e uma evasão fantástica.

Este seu mais recente livro, 1001 Razões para Mudar Tudo, até podia ser tomado por um título panfletário ou revolucionário, mas não: são apenas projetos de tricô, croché e costura…
É verdade. Mas também tem uma componente de grande mudança: a minha tese neste livro é sustentada com pequenas histórias e com a minha própria experiência, que nunca tive jeito para nenhuma dessas três coisas mas sempre as quis fazer. Os anos serviram, portanto, para me aperfeiçoar. E o livro pretende chegar onde? Muitas vezes, nas nossas vidas, precisamos de mudar mas não temos capacidade financeira para isso – não se pode mudar de casa todos os dias… Então a solução é mudar pequenas coisas à nossa volta que farão com que pareça que muito mais mudou.
No entanto, logo a abrir o livro diz que tem uma total inaptidão para as coisas de mãos… Como aliás documenta com foto dos seus filhos.
Essa fotografia é magistral: são os meus filhos no casamento do meu irmão (a que eu não fui porque a minha filha tinha 48 horas) e que eu achei que estavam lindos, com aqueles casaquinhos de malha que são a vergonha
de qualquer pessoa… Mas o amor é cego e o amor que eu tinha por aquele trabalho que tinha feito era uma coisa extraordinária.
Mas tem mesmo essa falta de jeito?
Tenho, tenho mesmo. Só que nunca deixei que a minha falta de jeito me derrubasse. E encontrei nestas “manualidades”, se lhes quiser chamar assim, uma arte que é fantástica a nível de descompressão, de evasão…
Não é por acaso que já há anos os médicos recomendam este tipo de coisa a pessoas em terapia.
E isto aprende-se e depois é só fazer igual?
Eu não gosto nunca de fazer igual, ponho sempre um pozinho meu, tem de ter a minha criatividade.
É isso que diz nos tutoriais: que apesar de se fazer assim, a Luísa acrescenta sempre qualquer coisa de seu.
Para começar, abrir aquela página nesse novo mundo que é o Facebook, foi um grande esforço para mim. Gastei horas a perceber como incluía uma foto ou um tutorial do YouTube, mas foi muito enriquecedor, a
avaliar pelo número de questões que me são postas. E é uma sensação maravilhosa saber que houve pessoas que tinham deixado de fazer e que voltaram. Como sabe, isto são coisas ancestrais que sempre se fizeram, quanto mais não seja para que as mulheres mantivessem as mãos ocupadas. Com este ressurgimento vintage, tornou-se moda e há muitos jovens a fazer este tipo de manualidades.
O livro que editou antes deste 1001 Razões foi um êxito de vendas
Quando eu decidi publicar este livro, houve muitas pessoas que me aconselharam a não o fazer, porque o livro anterior, Nos Teus Olhos Vejo o Mundo, foi um êxito editorial a nível português, claro, e esteve muito tempo entre os 10 livros mais vendidos o ano passado e, portanto, publicar a seguir um livro destes… E essas pessoas torciam o nariz à ideia, mas claro que eu levei a minha avante. E a reaçãodas pessoas tem sido ótima e eu fico contente porque havia a ideia de que as pessoas faziam estas coisas porque não as podiam comprar quando nem sequer é verdade: as pessoas fazem isto porque lhes faz bem à cabeça.
E essa noção também se aplica a si, claro.
Há mais de 21 anos que eu não compro presentes para ninguém. Dar a uma pessoa qualquer coisa que foi feita por nós, vai com ela uma parte de mim e isso é o mais gratificante: são pedaços de amor que vão com cada presente.
Há uma frase curiosa no seu livro: “A vida das pessoas é como um novelo, tem tendência para se emaranhar”.
Por vezes tem tendência para se emaranhar muito…
Isso significa que a vida de cada um devia ser, de vezem quando, cuidadosamente dobada?
Todos nós, por vezes, muitas vezes ao longo da vida, damos com o novelo dessa vida completamente emaranhado: não sabemos o que fazer a seguir, não sabemos porque estamos aqui, porque estão as coisas a acontecer da maneira, que estão. E isto, comparando com estes trabalhos, tem muito a ver com os novelos que se emaranham e que requerem uma grande dose de paciência e, de certa maneira é como se nós criássemos a nossa própria vida, no sentido de libertar a imaginação.
A Luísa sempre quis escrever, não foi?
Há duas coisas de que me lembro de querer desde os meus 11 anos: era ser mãe e escrever. E comecei a escrever na Imprensa pela mão da Madalena Fragoso, que me deu a mão no Semanário, no tempo em que o professor Marcelo Rebelo de Sousa era o diretor. O jornal tinha uma página da mulher e eu escrevia lá, já lá vão 32 anos… Desde então escrevi sempre na Imprensa.
E o primeiro livro surge em que circunstâncias?
Surge quando vou para o CNL, o Canal de Notícias de Lisboa. Uma editora veio ter comigo a dizer que queria publicar um livro meu. Respondi que estava bem, que um dia escreveria um. Que não, que eu tinha tantos
textos publicados que juntariam essas centenas e publicariam o livro. Portanto o meu primeiro livro foi consequência do programa Luísa ter tido tanta notoriedade que se publicou uma coletânea.
E quanto ao primeiro livro “a sério”?
Isso aconteceu como consequência de, aos 49 anos, ter tido um AVC. E comecei a escrever, sem saber se ia ser livro ou não. Quando cheguei aos 200 mil caracteres mandei para o meu editor, que gostou imenso, e assim
surgiu o Alma e os Mistérios da Vida. Que eu acho que só consegui escrever porque o AVC me mudou profundamente, incluindo a instalação de um grande silêncio interior…
Ser uma figura pública ajudou?
Claro! Tenho a perfeita noção de que se não fosse a televisão eu não teria escrito coisa nenhuma…
Houve escritores que a motivaram?
Sou uma apaixonada do António Lobo Antunes, da Agustina [Bessa Luís]: sou capaz de ler a Agustina e de ficar a saborear uma frase durante dias e dias. Tive a sorte de viver numa casa onde o meu pai (Pereira da Costa, que foi presidente do Sindicato dos Jornalistas) tinha mais de cinco mil volumes.
Algum desses livros a marcou profundamente?
Tenho um livro da minha vida, que é o A Leste do Paraíso, do John Steinbeck. A capacidade de descrição deste homem é fabulosa!
E o seu preferido?
A Alma e os Mistérios da Vida.
Tem uma personagem preferida nos livros que leu?
Gosto das figuras femininas da Isabel Allende, onde o místico, o imaginário e o verdadeiro está tudo junto.
Tem uma hora do dia para escrever?
Antigamente escrevia de madrugada, quando os meus filhos já estavam a dormir. Hoje em dia mudei e escrevo de manhã cedo. As personagens vão surgindo durante os meus trabalhos manuais e só vou para o computador quando a história já está toda na minha cabeça.
Da sua carreira na televisão qual foi o momento de que mais gostou?
Foi sem dúvida o Luísa, no Canal de Notícias de Lisboa. E a seguir o Emoções Fortes. Mas acho muito curioso o meu percurso na TV, porque eu comecei com a idade em que as pessoas vão saindo…
Continua a escrever em jornais. Como vê a imprensa escrita hoje em dia?
A morrer. A fechar cada vez mais e há muita coisa que eu não consigo compreender.
Se pudesse voltar atrás 30 anos que coisas mudaria?
Oh, nunca mais parávamos de falar! Todos os dias me arrependo de coisas que fiz.
Não parávamos de falar porque há 1001 Razões para mudar tudo…
Exatamente. No fundo andamos todos à procura da mesma coisa, que é a felicidade.
Gosta de comer? É um dos prazeres da sua vida?
Não, não é. Mesmo! Acho que cozinho bem, mas não é para mim: se pudesse vivia à base de pão,
queijo, café…
Portanto aquela sua falta de habilidade de mãos não se reflete na cozinha?
Não, não. Tal como estes hobbies, a cozinha – além de ser um ato de amor – é uma evasão fantástica. Sou capaz de passar horas na cozinha.
Outros prazeres da sua vida?
Os meus netos, os meus netos… Agora preencha 24 linhas a dizer “os meus netos”.

Respostas Rápidas

Qual a sua ideia de felicidade?
Os meus netos.
A sua maior qualidade?
Não ligar aos riscos, atirar-me para a frente.
O seu maior defeito
Não ligar aos riscos, atirar-me para a frente.
Quem gostaria de ser se não fosse a Luísa?
A minha filha [Inês Castel-Branco].
Onde gostaria de viver?
Aqui mesmo.

Torta da avó Luísa

Ingredientes
4 ovos
4 c. sopa de açúcar
2 c. sopa de farinha
manteiga q.b.

Preparação
Separam-se as claras das gemas. Batem-se as gemas com o açúcar até ficarem clarinhas. Junta-se a farinha às gemas e mistura-se bem.
Batem-se as claras em castelo e juntam-se ao preparado das gemas cuidadosamente. Forra-se um tabuleiro com papel vegetal barrado com manteiga e polvilhado com pão ralado e verte-se a massa para o mesmo.
Leva-se ao forno, que não pode estar muito alto.
Passados nem dez minutos, pica-se com um palito e tem de estar húmido.
Tira-se do forno e desenforma-se sobre um pano polvilhado com açúcar.
À parte faz-se um recheio com chocolate em banho-maria (ou outro recheio a gosto). Espalha-se esse recheio enquanto a torta ainda estiver morna, enrola-se com o pano e coloca-se num tabuleiro.

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