Kate Winslet | Chef Continente
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Entrevistas

Kate Winslet

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Sou uma mãe faz-tudo

Como é beijar Leonardo DiCaprio? Que parte da sua vida apagaria? Estas são as duas perguntas que mais vezes fizeram a Kate Winslet na sua carreira de um quarto de século. A primeira aconteceu na altura de Titanic (1997), quando uma adolescente de Reading, Inglaterra, de repente se tornou a atriz mais famosa do mundo. A segunda tem a ver com O Despertador da Mente (2004) – o seu melhor filme – e a sua maravilhos história triste de relações que se desfazem e das mentes que lutam para continuar. “E eu relembro essa pergunta”, diz ela em relação à segunda, com uma careta, “e a minha reação, tal como um de vocês gostaria que respondesse, é ‘apagaria um dos meus casamentos’”.

Uma mistura espantosa de movimento e som: almoçar com Kate Winslet é como acordar numa discoteca quando todos os nossos amigos já foram para casa. Encontrámo-nos em Londres, em novembro, para comermos umas saladas num reservado de um restaurante. Com um casaco preto muito elegante, está loucamente aberta à conversa mesmo com o gravador ligado e não abranda. O seu segundo marido, Sam Mendes, é mencionado – sem ter sido sugerido – depois de uns meros 99 segundos, enquanto os filhos e a defesa da sua educação surgem antes de uma canção pop média chegar ao fim. Uma força de tempestade de impetuosa jovialidade, Kate parece ser inteiramente feita de emoções e fala mais acerca da família do que todas as actrizes com quem já falei. Todas juntas.

Teoricamente, Winslet viajou até à capital desde a sua casa na costa para falar de dois novos filmes: Steve Jobs e A Modista. O primeiro é glorioso – um argumento tech thriller com um
toque de coração, graças às disputas entre Jobs e a sua diretora de marketing e mulher, Joanna Hoffman (Winslet, atrás de uns óculos grossos). O outro é estranho, um melodrama australiano em que vestidos ousados se confrontam com o enferrujado pano de fundo quando Myrtle (Winslet, de vestido) regressa à cidade natal, que a odeia, e quase toda a gente morre. Os dois papéis são completamente diferentes, mas feitos à medida de uma atriz camaleónica que decidiu que a amplitude é a parte mais entusiasmante da sua profissão.

Winslet fez 40 anos em outubro e afirma que o trabalho nunca foi tão interessante. “Não é preciso parecer glamorosa, ter uma beleza clássica o tempo todo para conseguir papéis”, explica. “À medida que essas personagens vão envelhecendo, tornam-se muito mais diversificadas.” Não é o que ouve dizerem os seus pares. “Porque ninguém o diz. Porque todas se queixam da falta de grandes papéis para mulheres.
Então esses papéis existem mesmo? “Não vou implicar com ninguém que se queixe, por exemplo, da desigualdade de pagamento... Mas tenho de falar por mim e não me posso queixar. Na realidade não posso resmungar.

Winslet está completamente apaixonada, de cabeça para baixo, pela sua vida. Recentemente trepou a uma montanha com Bear Grylls (um antigo elemento das Forças Especiais Britânicas,  montanhista e com um programa de televisão) para depois se atirar dela abaixo. (“Completamente normal.”) Ela é muito mais chique do que se poderia esperar e ri-se, com pequeninas gargalhadas, na forma frívola e indiferente dos bem-sucedidos na vida. Na realidade, o nosso almoço parecia mais, por vezes, um jogo perto da lareira, depois de jantar, do que uma obrigação contratual, com três imitações bem conseguidas – Michael Fassbender, Kevin Spacey, Julianne Moore. Quando lhe pergunto por que razão ela se mostra tão disposta a falar imenso sobre a família (quando entrevistar, por exemplo, Angelina Jolie representa essencialmente 20 perguntas desesperadas à procura de uma referência a Brad), ela começa por dizer que Mia – a mais velha, filha de Jim Threapleton – está muito interessada em representar, enquanto Joe – filho de Sam Mendes – adora futebol e é apoiante do Arsenal, mas que não vai contar mais nada além disso, que nunca conheceremos realmente os filhos. O mais novo, Bear, do atual marido, Ned Rocknroll, é demasiado novo para ter hobbies.

Mas suponho”, diz lentamente, “que falo muito deles porque são absolutamente o meu ser. E talvez o faça subconscientemente, porque fiquei muito assustada há uns anos, depois de me ter separado do pai de Mia. Lembro-me de que Jim tinha levado a Mia para qualquer lado e houve uma coisa horrível sobre 'onde é que está a mamã?'. E foi esmagador. Porque onde é que eu andava? A chorar num banco da cozinha porque a minha filha estava com o pai e eu sentia saudades dela. Estava furiosa com a ideia de que as pessoas pudessem pensar que eu não me importava com os meus filhos.

E também”, continua, como faz tantas vezes, em monólogos prolongados, mais próprios de um diva de psiquiatra, “porque estou mesmo orgulhosa do meu pequeno gangue. Somos um pequeno grupo de preocupados uns com os outros... Há uns tempos a minha filha fez 15 anos e eu escrevi-lhe uma longa carta, porque durante a maior parte da sua vida eu dizia: 'Consegues acreditar que quando tiveres 15 anos, eu terei 40?' Isso levou-me a escrever-lhe e dei comigo a dizer que tínhamos percorrido caminhos pelos quais eu nunca imaginara que a levaria, mas que visse só quem éramos agora. Estamos todos debaixo deste teto feliz e sinto muito orgulho nisso, porque houve momentos muito interessantes.

É muitas vezes frágil a maneira como fala, mas sempre elegante, com grandes olhos, janelas para um cérebro superansioso. É também assim que representa, nos seus melhores papéis: sedutora no drama sexual suburbano Pecados Íntimos (2006); etérea em O Despertar da Mente; profunda no filme Steve Jobs. Este trio de filmes mistura vigor e vulnerabilidade; e embora tenha havido insucessos – os últimos anos foram largamente para esquecer – Winslet não é uma atriz que alguma vez se deixasse ficar imóvel e aquietada, de alguma forma sempre capaz de ultrapassar o verdadeiro desafio de ficar para sempre conhecida por Rose, presa com ar gelado naquela jangada à medida que Jack se afogava (em Titanic).

Não que ela se preocupe muito. Pelo contrário, ponhamo-la a falar da carreira e a conversa rapidamente volta para a família. Quando lhe pergunto porque nunca esteve num palco, ela responde: “Há um casal que conheço que está a trabalhar em peças ao mesmo tempo. E disseram-me: 'Nunca vemos os nossos filhos, e não estivemos nos seus aniversários nos últimos quatro anos'. Prefiro não fazer esse trabalho de todo do que acontecer-me uma coisa dessas.” Quando lhe falo em A Modista e da sua rodagem no meio de nenhures, ela fala no seu “bebé portátil” e de nunca ter estado afastada dos outros durante muito tempo: “Sou uma mãe faz-tudo e tudo cairia por terra se não estivesse lá. Mas caía mesmo.”

Quando lhe digo que a sua personagem nesse filme tem um passado pelo qual é julgada, acrescento a pergunta: há alguma coisa no seu próprio passado que as pessoas possam achar estranho? Ela faz uma breve pausa, sacode a cabeça, encolhe os ombros e depois responde: “Não penso nisso. Principalmente porque foi há muito tempo que eu tive de me afastar das amalucadas e estranhas perceções que as pessoas tinham de mim. Uma coisa que acho difícil na vida é se sou injustamente julgada.” E continua:

“Acho que as pessoas me considerariam terra -a-terra. Mas no todo, as pessoas devem achar-me provavelmente bastante irritante. Porque falo da família. Acerca de ser normal... Acerca de ter um rabo grande. Mas, fique a saber, não me vou reinventar a mim mesma. Eu sou assim.

Isso é uma coisa que me revolta e é parte da razão por que já não leio jornais, porque vai sempre haver um julgamento de que, nove em cada 10 vezes, eu não vou gostar. Na verdade, quando era mais nova, a atenção dos média – de certeza na altura de Titanic – era bullying público. Ou era a forma como me apresentava, ou era ter casado nova. Era horrível. E eu pensava: ‘Mas eles não me conhecem.’ O sentimento de injustiça e incapacidade para fazer qualquer coisa era algo que na altura me afetava profundamente.” Então não lê as suas críticas desde o final dos anos 90? Ela confirma, com um movimento de cabeça. “Pensei que aquilo ia dar cabo de mim, se me preocupasse com o que alguém pudesse pensar.” E, pousando a faca e o garfo, conclui: “É nestas alturas que os média e as crianças são um grande problema.

Do que estamos a falar é tentar não ver maus cabeçalhos como “Três filhos de três maridos. Porque está a vida amorosa de Kate Winslet uma confusão?” (Daily Mail, Junho 2013). É como a sua mente funciona. Um comboio sem comando que sai dos carris e aterra noutros carris e continua a acelerar como se nada tivesse acontecido. Ela inventa uma miúda chamada Charlie, que tem 11 anos, vive em Pacific Palisades e posta uma fotografia a mostrar como fez ondas no cabelo. Recebe 71 “Gosto” de 150 seguidores e o problema, diz Winslet, é que Charlie não está a pensar como ela própria se sente, mas aquilo que outros, que ela não conhece, vão pensar. Porquê?

Tem um enorme impacto na autoestima das jovens mulheres, porque aquilo que elas fazem é ‘desenhar-se’ a si próprias para que as pessoas gostem delas. E o que vem com isso? Problemas de alimentação. E isso faz-me ferver o sangue. E é a razão pela qual não temos qualquer meio de comunicação social na nossa casa.” Como consegue isso? “Bom, é possível. Nós podemos e fazemos.

A receita de Winslet e Rocknroll para o blackout aos média mistura banir coisas com conselhos sábios. Quando Mia pediu o Instagram, por exemplo, Winslet contou-lhe a história de Charlie, de Palisades, e como o partilhar de fotos é dar as nossas memórias. Não diz não à tecnologia, mas acha que “os pais estão a perder o controlo”. Algum conselho? “Tem de se ser pai e mãe para todo o serviço. Tão simples como isso. E é importante dizer alguma coisa publicamente, como: ‘Deixem os vossos filhos trepar às árvores. Tirem-lhes os aparelhos da mão. Joguem Monopólio!’ Vamos a um café e os crescidos estão numa ponta da mesa e as crianças na outra, agarrados a aparelhos, sem olharem uns para os outros. As crianças mergulham num mundo e os pais deixam-nos. Vão-me bater por dizer isto, mas é preciso cada um dos membros da família para formar uma família, e há demasiadas interrupções, hoje em dia – e os aparelhos são uma imensa interrupção.

Terminamos com café. Como, pergunto-lhe, é que acha que o público a vê? “Acho que as pessoas me considerariam terra-a-terra”, diz ela, sorrindo muito levemente. “Mas no todo, as pessoas devem achar-me provavelmente bastante irritante. Porque falo da família. Acerca de ser normal... Acerca de ter um rabo grande. Mas, fique a saber, não me vou reinventar a mim mesma. Eu sou assim.

E com estas palavras, partiu – depois de bisbilhotices maldosas sobre estrelas com quem já contracenou, mas que ela prefere manter off the record. O lugar que a maior parte das pessoas guarda para as suas vidas privadas.

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