José Rodrigues dos Santos | Chef Continente
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Entrevistas

José Rodrigues dos Santos

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O senhor dos romances

Entrou no Hotel da Penha Longa com à-vontade e dirigiu-se para a “sua” sala. Com um sorriso de garoto comentou: “Eles devem pensar que eu vivo aqui…” Há uma separação de águas entre o homem que vemos a fazer televisão e aquele que escreve romances?

J.R.S. Isso é apenas uma questão de perceção, porque a pessoa é a mesma. Só que eu, como toda a gente, desempenho vários papéis: dou aulas na faculdade, que é um outro papel; quando sou jornalista é um outro (e aí até há uma subdivisão de papéis, quando sou repórter); quando estou em casa com a família é outro papel. Portanto, somos todos multifacetados, embora seja sempre a mesma pessoa.

Mas deve ter um método para escrever: as primeiras horas da manhã, por exemplo?

J.R.S. Ah, isso sim. Hoje, por exemplo, levantei-me às cinco da manhã e comecei a escrever. Para mim, como para si, como para todos os jornalistas, escrever é uma coisa natural, é um modo de vida. Eu escrevo profissionalmente desde os 16 ou 17 anos e a escrita romanesca é apenas um passo noutra direção de um trabalho que eu já faço há muitos anos e portanto sai-me naturalmente, é quase como respirar. E nem sequer requer uma disciplina particular, tal como não precisamos de disciplina para respirar. Quando posso, escrevo: é uma coisa que me descontrai e me dá prazer.

Percebe-se nas primeiras páginas, pelo agradecimento à Fundação, que esta é a história de Calouste Gulbenkian. Porquê ele?

J.R.S. Quando comecei a escrever romances tive a ideia de escrever sobre coisas em que Portugal teve um papel importante no mundo. Comecei com  A Ilha das Trevas , que era sobre a invasão da Indonésia e os esforços de Portugal para libertar Timor, depois foi A Filha do Capitão, sobre a presença portuguesa na primeira Guerra Mundial, fiz o Codex 632, sobre os Descobrimentos, O Anjo Branco, sobre a guerra colonial e este é sobre  o homem que é o arquiteto do negócio mundial do petróleo que veio viver e morrer cá, o que tornou Portugal no centro mundial do negócio do petróleo. As grandes decisões sobre o petróleo passavam por Lisboa. Toda a gente envolvida teve de vir a Lisboa negociar o acordo que permitiu a exploração de petróleo na Arábia Saudita, porque o Gulbenkian disse que não ia a lado nenhum, eles que viessem cá, a “Lisbon, Portugal”… E eles vieram. Por isso, escolhi Gulbenkian, porque foi uma altura em que Portugal interagiu com o mundo de uma forma muito significativa.

Este livro começa na Arménia, depois Constantinopla, Marselha, Londres…

J.R.S. Não é exatamente Arménia, porque na altura tudo aquilo era o Império Otomano. Mas sim, segue os passos da vida de Gulbenkian.

E a sua investigação levou-o a todos os locais descritos?

J.R.S. Praticamente todos. Não fui a Trebizonda, onde a história começa, mas fui a muitos dos lugares: a Constantinopla (ou Istambul, como os turcos fizeram pressão em 1922 para que se chamasse à cidade) e a outros onde a ação decorre.

O segundo volume da história vai passar-se aqui, em Lisboa?

J.R.S. Não só, mas toda a gente sabe que termina em Lisboa, porque foi aí que Gulbenkian morreu. E esse é um pormenor curioso, porque todos os meus romances começam em Portugal e acabam num sítio qualquer. Este não: começa num sítio qualquer e termina em Portugal. O que os portugueses não sabem sobre o Gulbenkian é como é que ele chegou aqui; sabem que morreu aqui, que viveu no [hotel] Aviz, que era muito rico e nos legou uma Fundação extraordinária, que ainda hoje é uma das maiores do mundo. O romance vem explicar a parte anterior, a que desconhecemos.

Desde A Fórmula de Deus que os meus livros vendem acima de 100 mil exemplares em dois ou três meses. (...) Temos de aceitar que 100 mil exemplares é um número respeitável em qualquer parte do mundo.

Teria sido complicado publicar esta história num só volume em vez de dois ( O Homem de Constantinopla  e Um Milionário em Lisboa)? 

J.R.S. Daria um volume de 1100 páginas, o que não é prático para quem o quiser levar para o comboio, além de que ia fazer disparar os custos de produção. Mas esta decisão pareceu uma solução elegante e que me parece que agradará às pessoas.

Faz ideia do número de exemplares que vende?

J.R.S. Desde A Fórmula de Deus que os meus livros vendem acima de 100 mil exemplares em dois ou três meses, o que é muito bom.

Para um país que lê pouco…

J.R.S. Também não é bem assim… Quando saiu há uns anos o Equador havia a noção de que o país não lia e, de repente, o livro vendeu 300 mil exemplares. Isso quer dizer que as pessoas liam – o que não liam eram os livros que estavam a ser feitos e de que não gostavam… E no mercado, muito provavelmente, havia livros que não interessavam às pessoas, o que prova que os leitores procuram boas histórias e bem contadas. E isso acontece às pessoas que têm um background de jornalismo. E temos de aceitar que 100 mil exemplares é um número respeitável em qualquer parte do mundo.

Dá atenção à sua forma física?

J.R.S. Como toda a gente… Mas porquê?

Apresentar um programa de eleições, que hoje já é mais rápido, não equivalerá a uma prova de meio-fundo?

J.R.S. Não, nem por isso… Um programa, qualquer que seja, é um trabalho de equipa, portanto as coisas acabam por ser divididas. Ao contrário de escrever um livro, que é um trabalho solitário. Só no fim, quando entra em fase de produção, é que começa também a ser um trabalho de equipa.

Pede opinião a alguém próximo sobre o livro que está a escrever.

J.R.S. Sim, à minha mulher.

É a primeira a ler?

J.R.S. Sim, sim. E isso também ajuda a ter o olhar de um leitor, a ter noção do que poderão ser as eventuais fraquezas do romance.

Concorda quando lhe chamam o "Dan Brown português"?

J.R.S. Isso não é uma coisa que me preocupa, porque acho que nem chega a fazer sentido. Acho que temos um ponto em comum, que é o de lidarmos os dois com mistérios, mas isso também se poderia dizer de Edgar Allan Poe. Não é um exclusivo…

Preocupa-se com alimentação saudável?

J.R.S. Tanto quanto me é possível. Sobretudo quando se tem filhos.

E costuma cozinhar?

J.R.S. Não. Mas costumo comer…

E se um dia estiver sozinho, sem ninguém para cozinhar, como é que faz?

J.R.S. Compro um take away…

Isso vai dar cabo desta segunda parte da entrevista, em que lhe ia pedir uma receita e tudo…

J.R.S. Uma receita?!?

Pode ser uns ovos mexidos à sua maneira…

J.R.S. Nem isso… Quando era adolescente fazia uns ovos mexidos ou estrelados, mas hoje nem isso faço…

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