Joana Roque | Chef Continente
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Entrevistas

Joana Roque

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A cozinha, as receitas, os blogues e o livro

A primeira receita que tenho memória de preparar foi o bolo de laranja da minha avó.

Guarda na memória os dias passados na cozinha, a observar a destreza culinária da sua avó e mãe. Formou-se em turismo, mas nunca exerceu, e encontrou nos blogues a forma de expressar a sua paixão pelo mundo das receitas e da gastronomia. O sucesso foi rápido e já resultou num livro.

Joana Roque nasceu em Coimbra, cidade onde vive e a partir da qual gere os seus blogues sobre receitas e gastronomia. Recentemente publicou o livro Feito em Casa, que ajudou a dar-lhe visibilidade. Fomos conhecer um percurso, que começou nos seus tempos de criança.

O seu interesse pelo mundo da cozinha manifestou-se publicamente em 2006, com o seu primeiro blogue. Vasculhando as suas memórias de infância, encontra aí alguma influência?

J.R. Sim. A culpa de eu gostar tanto de cozinhar é da minha mãe e da minha avó. Desde sempre que me lembro de as ver cozinhar, preparar compotas, marmeladas, jantares e festas. E principalmente a serem sempre tão elogiadas. Talvez por isso lhes quisesse seguir as pegadas e aprender com elas.

Sabemos que a sua avó e a sua mãe lhe passaram muitos ensinamentos. Recorde-nos um pouco essas memórias gastronómicas em família...

J.R. Lembro-me de querer aprender com elas, de estar na cozinha a ajudar. Queria saber como é que se fazia e por isso fazia muitas anotações num caderninho. Ainda bem que tiveram e têm sempre paciência para me ensinarem o que sabem. Eu é que não sei cozinhar como elas. Mas tento.

Lembra-se da primeira vez que tentou fazer uma receita? Conte-nos como foi.

J.R. A primeira receita que tenho memória de preparar foi o bolo de laranja da minha avó. Como ainda não estava muito habituada às medidas e às receitas, em vez de ¾ de uma chávena de óleo, como estava indicado, usei 3 a 4 chávenas de óleo. Claro que esta primeira receita foi um desastre, mas nem assim pensei em desistir de cozinhar.

E a sua cidade de Coimbra... também está associada ao seu gosto pela gastronomia?

J.R. Coimbra foi a cidade onde nasci e vivo e é claro que teve influência. No entanto, todos os sítios onde por onde passei, e que visitei, acabaram por estar associados ao meu gosto pela gastronomia.

A dieta e a alimentação equilibrada era a temática do seu primeiro blogue. A partir dessa experiência, do contacto que estabeleceu com centenas de fãs, sente que se come mal no nosso país? 

J.R. Acho que no geral podíamos comer bem melhor…

Quis proporcionar às pessoas receitas acessíveis e fáceis de pôr em prática. Foi esse o segredo do seu sucesso?

J.R. Provavelmente. E talvez esta seja a pergunta mais difícil que me podem fazer, pois não consigo perceber, ainda hoje, a dimensão de tudo o que tem acontecido. Mas é capaz de ter sido essa a razão, juntamente com o facto de serem receitas que correm sempre bem. 

Rapidamente as pessoas começaram a “exigir-lhe” mais do que receitas de dieta. Conte-nos como se desenvolveu essa relação com os seus fãs...

J.R. A fase das dietas passou rapidamente. Do blogue de dietas ao blogue de receitas passou-se pouco mais de um mês. E quando se começa um blogue de receitas esquecem-se as dietas. Mas gosto de estar atenta ao que me pedem e às sugestões que me fazem diariamente. Não gosto de deixar ninguém sem resposta ou sem uma palavra de agradecimento. Mesmo que às vezes demore umas semanas.

A par dos blogues, surgiu-lhe o convite para fazer o livro Feito em Casa. Como é que viveu esse desafio?

J.R. Foi um convite que eu não esperava. Mas foi tão inesperado e improvável, que não poderia recusar. Resultou numa experiência que me permitiu partilhar as receitas que gosto, as minhas memórias gastronómicas de infância e esta paixão por cozinhar. Contei, também, com pessoas fantásticas que me guiaram e ensinaram durante este processo. Foi muito bom.

No seu trabalho, que importância atribui à cozinha tradicional portuguesa?

J.R. Eu cresci à volta da cozinha tradicional portuguesa. Via as minhas avós fazerem enchidos, rojões, chanfana, arroz de bucho, arroz-doce, aletria, etc. As minhas memórias gastronómicas levam-me sempre à cozinha tradicional e acho que não gostaria tanto de cozinhar se esta não estivesse tão presente. Além disso é essencial saber cozinhar os nossos pratos para podermos aprender outras coisas, para podermos inventar, criar e misturar.

E os ingredientes mais tradicionais do nosso país...considera-os relevantes?

J.R. Claro. Os nossos ingredientes tradicionais é que tornam a nossa cozinha tão rica e diversificada. 

Os portugueses são muitas vezes acusados de ter uma baixa auto-estima. Acha que isso também acontece com a nossa cozinha? Não nos valorizamos? Não nos levamos a sério?

J.R. Temos o hábito de criticar o que é nosso e de só valorizarmos o que vem de fora. Mas aos poucos acho que estamos a mudar essa mentalidade. Estamos mais atentos e preocupados em dar valor à nossa cozinha e cultura. 

No entanto, na última década, assistimos ao crescimento do interesse pela gastronomia e vinhos em Portugal. Como explica este fenómeno?

J.R. Acho que, finalmente, percebemos que temos um potencial gastronómico e cultural único e pode fazer a diferença. Não há quem nos visite que não fique apaixonado pelos nossos pratos e pelo nosso vinho. Era uma pena sermos os únicos a não ver isso. Mas é também uma questão de estar na moda.

No seu caso, a cozinha tornou-se algo exclusivamente profissional ou mantém o prazer de cozinhar para a sua família, no dia a dia?

J.R. Para mim cozinhar é apenas e só um prazer que partilho com a minha família e amigos. Eu não cozinho, nem faz parte dos meus planos, cozinhar profissionalmente.  Tenho, isso sim, o privilégio de estar a fazer de um prazer uma forma de vida.

É formada em Turismo, mas com a evolução inesperada que teve na sua carreira, como se define profissionalmente?

J.R. Apesar de ser formada em Turismo, nunca trabalhei nessa área. Atualmente, dedico-me apenas aos blogues, ao livro e outros projetos que entretanto surgiram. Sou uma pessoa muito feliz com aquilo que faço, já que posso dedicar-me ao que quero e gosto.

Depois do seu sucesso, nos blogues e no livro, quais são os próximos projetos? Para já só há um livro!

J.R. Continuar a trabalhar nos blogues e a divulgar o Feito em Casa. O resto aparecerá quando e se tiver de acontecer.

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