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Entrevistas

Isabel Stilwell

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Só preciso que os meus netos estejam bem para estar bem

Escreve crónicas para a Máxima, a Pais & Filhos e o Jornal de Negócios, romances, literatura infantojuvenil, romances históricos. Em qual destes géneros se sente mais à vontade?
Gosto de imaginar todos esses géneros como divisões de uma casa da escrita e portanto há momentos de recreio, que é a literatura infantil, depois há momentos de trabalho intenso, que são os momentos de romance histórico, que obrigam a uma disciplina muito grande, depois há também a divisão da indignação, que acaba por funcionar nas crónicas, onde vem ao de cima o meu lado de jornalista, em que a minha missão é apontar injustiças e defender causas. Às vezes penso, quando estou a escrever um romance, que só queria uma casa na praia, como nos filmes, só com um cão... Mas depois faz-me falta o barulho e a agitação. Habituei-me às grandes redações dos jornais.

Como é que funciona? Vem de repente uma ideia, vai à procura de inspiração?...
Nos romances históricos acaba por ser uma procura e um momento em que há um clique, por alguma coisa que li, por exemplo. Mas isso implica um segundo momento, um “contacto” com o personagem para ver se temos empatia para vivermos juntos durante dois anos... Mas o Diário de uma Avó-Galinha e as outras histórias, essas já correspondem mais a repentes: são muito conversas, muito a vida da rua.

Falou nas figuras históricas: muitas delas estavam um pouco esquecidas…
Digamos antes que estavam congeladas, ou muito liofilizadas em volta de um mito, das suas relações com as outras personagens daquele tempo. Acho que esses livros têm permitido aproximar essas figuras das pessoas.

E acha que as pessoas se voltam a identificar com as figuras que aprenderam na História de Portugal?
Gosto de pensar – e tenho visto isso em feiras do livro – nas pessoas que me abordam e me dizem que a História que aprenderam na escola não lhes disse nada mas que, através dos meus romances, se tornaram entusiastas. E um livro pode ser sempre um ponto de partida para irem visitar os sítios, conhecerem mais coisas, irem ver a bibliografia e, nesse sentido, fico muito contente.

Os livros históricos implicam uma grande investigação.
É verdade que sim. Eu dedico cerca de dois anos e tal a fazer essa investigação. E não há maneira de encurtar isso…

Como é que faz? Vai à procura da informação e depois monta um puzzle?
O meu método é muito jornalístico. Primeiro leio tudo o que é possível ler, depois construo uma grelha, factos, e depois, no fundo, é transformar isto em 3D…

Se formos ver todos os géneros de que falámos, os jornais, a rádio, chegamos à conclusão de que a Isabel é um bocadinho um polvo.
Eu acho que sim! Todas as mães precisam de ter imensos braços e mãos – e mesmo os oito do polvo não chegam! O que eu acho é que se vão estabelecendo prioridades: hoje, a minha prioridade é falar consigo. Depois vou levar as minhas netas. E como é dia de crónica para o jornal, já sei que depois de jantar tenho de começar. Mas esta possibilidade de poder gerir o meu tempo, permite- me definir, dia após dia, quais são essas prioridades. Mas tem de haver algumas clareiras, se não a vida em família era impossível.

Tem uma rotina de escrita? Já disse que as crónicas são à noite…
Não gosto das manhãs. Tenho uma filha que é neurocientista e descobri que o meu cérebro acorda mais tarde do que eu. Sou capaz de efetuar coisas funcionais (pôr a louça na máquina) mas sem o cérebro ter noção disso… Depois vai começando a acordar e, no final do dia, quando todos vão para a cama, fico com o tempo que me pertence. E depois tenho de dizer a mim própria. "Não podes passar das três da manhã"…

Portanto, para si, o escrever é um ato solitário?
É solitário, sim. O mais solitário que se pode imaginar.

Este livro que nos traz aqui, o Diário de uma Avó-Galinha, é uma espécie de sanduíche de entremeada: por um lado fala das suas dúvidas de avó-a-ser e depois tem excertos das suas conversas com Eduardo Sá.
Conversas essas que duram já há 13 anos e que são uma rubrica diária na Antena 1. Gravamos em blocos de cinco, para uma semana, e são um prazer tão grande que ninguém diria que são conversas entre dois amigos que pegam em coisas, discutem, explodem, se indignam, tudo isso… É muito ao correr dos sentimentos, sem agenda pré-determinada e, talvez por isso, é que se aguenta e dura.

Quando se é mãe (ou pai) vemo-nos de repente com um bebé que não traz livro de instruções. Quando se é avó (ou avô) tentamos pôr em prática o que se aprendeu enquanto mãe ou pai?
Acho que há um momento de choque, quando somos avós, que é perceber que não somos pais. Aquele momento em que o vemos na maternidade e pensamos: “Agora vou levá-lo para casa”. E somos “apenas” avós, somos a retaguarda, não estamos na primeira linha. Mas ser avó é uma coisa de grande paixão e um exercício de rejuvenescimentos. De repente, é a oportunidade de voltar a ver o mundo pelos olhos de uma criança, que são uns recetáculos completamente abertos e ávidos. E fazemos loucuras por elas.

Também acha, como o Eduardo Sá, que “os avós são um bem de primeira necessidade”?
Acho que sim. Porque estamos numa época em que os pais estão a dar o melhor de si. Mas eles às vezes são um bocadinho tecnocratas e acham que isto é de A para B para chegar a C e eu acho que os avós conseguem desconstruir, no bom sentido, esse trajeto. E que pode ser um sentido de liberdade para eles. Por exemplo: os avós fazem com que eles mexam na terra, dão-lhes banho de mangueira em fevereiro e depois um banho de água quente – coisa que os pais achariam terrível…

E também concorda com o Eduardo quando ele diz que “os bons filhos são aqueles que nos trazem problemas”?
Essa frase do Eduardo é muito engraçada, bem como outra que diz que “a vida são problemas”, e os problemas são para se resolver. Claro que os bons filhos, nesse sentido, nos desafiam a ver a vida de maneira diferente. Como diz a Alison Gopnik, as crianças não são tão educadas pelos pais e pelos adultos como eles pensam porque, se assim fosse, a Humanidade não tinha evoluído…Há uma força misteriosa dentro da criança que a faz ir mais longe do que nós.

Considera-se mesmo avó-galinha?
Só no sentido de precisar que eles estejam bem para eu estar bem. O Eduardo diz uma coisa que acho muito importante: “Não devemos desistir de educar os nossos filhos.”

Tem a noção de que pôs muita gente a ler? Ou a voltar
a ler?

Há muita gente que contacta comigo que sabe os nomes das personagens, mas é a voz dos pais, é a voz dos avós que vai fazer toda a diferença. No norte da Europa as crianças chegam à escola com (não quero falhar o número) não sei quantas centenas de horas de leitura ouvida. E isso é que é o segredo do mistério do livro.
 

Como é que vê o futuro do livro e, consequentemente, da imprensa?
A imprensa em Portugal está a ter problemas graves, não só pela publicidade, mas também porque as pessoas perderam muito o hábito de comprar o jornal e acabam por aceder à informação, nem sempre a melhor, pela Internet. Quanto ao livro, acho que acabará por passar para o digital, embora ainda não se tenha descoberto um modelo de financiamento.

Tem algum livro em e-book?
Tenho os romances, não as histórias para crianças.


E não gostaria? Cabe a criança, ao colo, por cima o
e-book…

Sim, sim, até porque eles podem mexer e alguns têm animações e os bichos mexem… E as histórias são fascinantes.


Se pudesse ter o prazer de poder estar aqui à conversa
com um escritor, em vez de ser comigo, quem é que
escolhia?

Li agora um livro da Elizabeth Strout, O Meu Nome é Lucy Barton, e adorei. É fininho, está mal traduzido, mas é tão bom que consegue superar isso. Há um outro, que já entrevistei, o Irvin D. Yalom, autor de O Dia em que Nietzsche Chorou. Mas estou muito bem consigo!


Pode dizer-se que há coisas boas e más em se ser escritor?
Há aquela coisa boa que é entregar um livro grande e depois vê-lo, prontinho. Mas achamos sempre que há coisas que pensamos que podíamos ter feito melhor. É talvez por isso que raramente consigo voltar a ler os meus livros…
 

Houve algum livro que a tivesse feito exclamar: “ah como é bom eu saber ler”?
Ah, tantos! Olhe, o Winnie the Pooh! Que eu leio tantas vezes às minhas netas, a maior parte das vezes mais por mim do que por elas…
 

Houve coisas que não leu e que agora lamenta?
Às vezes falam-me de alguns clássicos, como o Alexandre Herculano, que eu só li na escola, a correr. Não na altura certa, provavelmente. Li coisas do Tolstoi com 13 ou 14 anos e aquilo foi inflamatório – mas agora gostaria de ler e ver o resultado.
 

Preocupa-se com a alimentação?
Muito pouco.


E com o seu físico?
Outro dia escrevi uma crónica em que dizia que quando uma mulher se prepara para ir à praia (depilação, dieta, escolher as coisas, etc.) o verão acabou...

Respostas rápidas

Livro preferido
J. R. R. Tolkein

Livro de cabeceira
A Bíblia, tradução do grego de Frederico Lourenço

Um filme
Beleza Colateral (David Frankel, 2016)

Um sonho muito antigo
Ter mais netos...

Um defeito
Precipitada

Uma qualidade
Honesta

Viagem de sonho
Moçambique

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