Hélio Loureiro | Chef Continente
Dificuldade:
Custo:
Tempo de Preparação:
Tipo de Refeição:
Ocasiões:
Chef:
Dieta:

Entrevistas

Hélio Loureiro

home-slider-top

Uma manhã no Porto... À conversa com o chefe

Procuro valorizar os produtos portugueses. Só aceito fazer promoção e publicidade a produtos nacionais. Encaro isso como uma missão e procura estar sempre ao lado dos produtores.

Encontrámo-nos com o Chefe Hélio Loureiro no bar do Porto Palácio Hotel e foi aí mesmo que começamos uma conversa que se prolongou numa visita guiada pelo o hotel e pela carreira do Chefe. Em tom descontraído, a conversa começou pelos anos em que o jovem Hélio despertou para a cozinha...

Disse-me há pouco que a sua vocação de cozinheiro foi uma surpresa para a sua família. Como recorda esse tempo?

Hélio Loureiro. Eu comecei a gostar de cozinha aos 14 anos. Nesse tempo, a cozinha era um local mal visto e os cozinheiros estavam muito estigmatizados. Eram sempre olhados como homens barrigudos e de grandes bigodes.

Mas como é que se deu conta, aos 14 anos, de que gostava tanto de cozinhar?

H.L. Eu já cozinhava em casa todos os dias desde os 10 anos. Era eu que fazia o jantar para a família. São anos que recordo com satisfação e que me ajudaram muito a desenvolver o gosto pela cozinha.

Mas a sua família não achou muita graça à ideia de querer fazer da cozinha uma profissão...

H.L. Sim. Preferiam que eu seguisse a carreira de médico, advogado ou engenheiro. Mas a minha vida acabou por seguir um rumo diferente e não me arrependo.

Mais tarde, a ida para a Escola de Hotelaria do Porto deve ter representado uma grande transição...

H.L. Foi um choque, pois eu estava à espera de uma grande escola e de um enorme rigor. Esse rigor até existia, mas faltavam os grandes chefes. Contudo, foi um momento importante em que fiz toda a minha aprendizagem de base, o que foi fundamental para poder evoluir.

… faço uma cozinha que procura proporcionar prazer e boas emoções, com base em receitas bem portuguesas.

Portugal e a gastronomia

Há uma crescente valorização da qualidade e autenticidade dos produtos nacionais. o chefe identifica-se com este movimento?

H.L. Claro que sim. Procuro valorizar os produtos portugueses. Encaro isso como uma missão e procuro estar sempre do lado dos produtores que se esforçam no mesmo sentido.

Apesar de termos tão bons produtos, a cozinha portuguesa, quando comparada com a espanhola ou a francesa, não tem qualquer expressão internacional...

H.L. É verdade, mas defendo que não devemos exportar a nossa cozinha. É importante exportar os nossos produtos, dar a conhecer a sua qualidade, mas de forma a seduzir os estrangeiros a visitar Portugal. É importante que conheçam a nossa gastronomia nas suas zonas de origem. Se reparar, os espanhóis fizeram isso. Exportaram a ideia da cozinha espanhola, mas transformaram-se num destino turístico com uma âncora importante na vertente gastronómica.

Deveríamos cada vez mais exportar os nossos produtos, dar a conhecer a sua qualidade de forma a seduzir os estrangeiros a visitar Portugal. É importante que conheçam a nossa gastronomia nas suas zonas de origem.

Mas em Portugal nunca fomos bem sucedidos a fazer da gastronomia um produto turístico...

H.L. É verdade. Julgo que ainda não conseguimos "vender essa ideia" e que o nosso o marketing não está a ser eficaz em valorizar o património gastronómico que temos. E para isso, não precisamos de nos afrancesar nem espanholar...

O chefe e a sua cozinha...

Como é que o chefe Hélio Loureiro define a sua cozinha?

H.L. Eu detesto rótulos! Posso dizer que faço uma cozinha que procura proporcionar prazer e boas emoções. Numa frase, é uma cozinha de prazer com base no receituário tradicional português.

Para proporcionar essas sensações positivas privilegia algum tipo de ingrediente nacional?

H.L. Temos tantos produtos bons que é difícil destacar algum. Os nossos queijos são ótimos, a carne é fantástica, o peixe  e mariscos são fabulosos. Temos fruta que sabe a fruta e legumes que sabem realmente a legumes...

Como vê o crescimento do interesse pelos temas da gastronomia?

H.L. Julgo que os vinhos é que ditaram esse interesse. As pessoas interessaram-se pelos vinhos e depois começou a fazer-se uma associação aos pratos e à culinária. Considero, também, que se trata de um fenómeno social relacionado com as novas famílias monoparentais. Os homens começaram a cozinhar e a crise económica também tem forçado as famílias a fazerem refeições em casa.

Ao mesmo tempo, os chefes de cozinha também começaram a ser endeusados. Julga que se trata de uma moda? Como vê esse mediatismo?

H.L. Já temos chefes que cheguem. Agora precisamos é que os que se dizem chefes também sejam cozinheiros. A principal missão de uma refeição é alimentar! Se ficarmos apenas pela rama, pelos empratamentos sumptuosos e pelo espetáculo estaremos a falhar. É importante que haja em cada chefe um verdadeiro cozinheiro, um profissional com vocação e capacidade técnica.

E o chefe Hélio Loureiro, considera-se uma vedeta?

H.L. Não. Espero ser reconhecido pelo meu trabalho e não ser apenas uma pessoa conhecida. Todos nós gostamos que isso aconteça e eu não sou exceção. Eu sou uma pessoa antivedeta, que valoriza o mérito, seja na profissão ou pelo serviço que presto  à comunidade.

No seu site, os valores do seu projeto têm muitas referências a uma dimensão espiritual de inspiração cristã...

H.L. Retiro muitos ensinamentos do Evangelho. É difícil explicar tudo isso numa entrevista, mas se reparar, até o momento em que Jesus se despede dos apóstolos – a última ceia –, teve lugar à volta da mesa. Ser chefe também é juntar as pessoas, alimentar, gerar momentos de partilha, aproximar gerações e criar as condições para que se difundam valores civilizacionais e espirituais positivos.

O chefe está nesta profissão há mais de 25 anos. Mantém o gosto por cozinhar?

H.L. Já várias vezes fui abordado por pessoas (nomeadamente no evento Mercado de Sabores), que me disseram que bastava olhar para mim para se perceber que eu tinha um enorme gosto por cozinhar. Fico contente quando ouço dizer isto. Continuo a recrear-me com os ingredientes e acabo por fazer coisas que nada têm que ver com a receita original. Ora isso só acontece quando se gosta e se vive intensamente esta profissão.

Hoje, como há 25 anos atrás, mantenho um enorme prazer em ir para a cozinha, escolher os ingredientes e preparar uma receita.

E mantém o hábito de cozinhar para a família e para os amigos?

H.L. É das coisas que mais gosto de fazer. Mesmo durante a semana, quando vou a caminho de casa, gosto de telefonar a um amigo para o convidar a jantar. Aproveito também essas oportunidades para provar vinhos e para ouvir as críticas da família sobre os meus pratos. E em casa ninguém me perdoa...

Para além do seu trabalho no Porto Palácio Hotel, que outras atividades têm feito parte do seu 
dia-a-dia?

H.L. É difícil descrever aqui tantos anos de trabalho, mas a minha relação com o Grupo iniciou-se com a entrada para o Porto Palácio Hotel — tinha eu 25 anos de idade e cinco de profissão. E foram também surgindo projetos relacionados com as lojas Modelo e Continente, como o desenvolvimento de receitas para os livros da Popota, a campanha dos 4 euros, o site Chefe on-line, os piqueniques e a relação com a Seleção Nacional de Futebol, que são patrocinados pelo Modelo.

Gosto que as pessoas me abordem, não por ser conhecido, mas porque reconhecem valor naquilo que faço.

E para terminar, que balanço faz desta sua colaboração?

H.L. Sinto que recebi tanto como aquilo que dei. Dei sempre o meu melhor ao Grupo e valorizei sempre o que me é pedido. Estou também muito reconhecido por trabalhar numa empresa moderna, que está sempre a lançar-me novos desafios. Foram 22 anos de trabalho que passaram depressa, pois todos os meses há novos projectos para lançar. É um ritmo de que gosto e que me estimula. Tenho também um enorme respeito e consideração pelo Eng. Belmiro de Azevedo e pela sua família e sinto que se trata de um sentimento recíproco.

Hélio Loureiro num minuto…

Um livro que recordo: “Um Motim Há Cem Anos”, de Arnaldo Gama.

O meu filme preferido: Casablanca.

O meu pior defeito: São tantos…

A minha maior virtude: Não consigo identificar nenhuma. Deixo isso para os outros.

Gostava de jantar com: Angelina Jolie.

Não gostaria de me sentar à mesa com: Quem não gosta de beber vinho.

Vinhos de eleição: Os do Douro.

Para acompanhar que prato: Tripas à moda do porto!

O melhor da vida: Viver intensamente.

A viagem que me falta fazer: Ir à Terra Santa.

Mais entrevistas