António Zambujo | Chef Continente
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Entrevistas

António Zambujo

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O meu Natal é festa em cima de festa.

Andou pelo fado, pelo cante alentejano, pela música popular e agora, com este "Até Pensei que Fosse Minha", voltou-se para a música brasileira de autor. Como classifica este percurso?
Acho que é um percurso natural. Acaba por ser um bocadinho o reflexo daquilo que ouço muito, que influenciou muito a minha forma de cantar, de compor, de interpretar.
Digamos que tudo isso junto são coisas que fazem sentido na minha cabeça. A Carminho, que gravou consigo neste disco o tema "O Meu Amor", vai fazer um álbum com músicas do
António Carlos Jobim.

Os portugueses estão todos a voltar-se para o Brasil?
Também não diria tanto… Mas a verdade é que estamos a falar de dois compositores, o caso do Chico Buarque e do Tom Jobim, que são brasileiros mas que são, mais do que isso, compositores à escala mundial e que são duas pessoas muito importantes na história da música. Mas isso não quer dizer que nos estejamos a voltar todos para o Brasil: mas este é um país que tem uma enorme riqueza musical.

O que o levou a escolher Chico Buarque e não, por exemplo, Caetano Veloso? Caetano esse que lhe teceu, por escrito, grandes encómios, realçando mesmo a sua colocação da próclise…
[risos] Ah, isso! Eu poderia ter gravado uma infinidade de nomes. A minha entrada na música brasileira deu-se com o João Gilberto. E através do João Gilberto, que era um cantor que cantava tudo ou quase tudo dos autores, fui descobrindo tudo da música brasileira: desde os movimentos pré-bossa nova até aos compositores mais atuais, e no momento em que surgiu esta ideia do disco, na minha cabeça o Chico fazia todo o sentido, foi por isso… Mas já tinha feito, um ano antes, num festival literário, um concerto só com músicas do Caetano. Até teria sido mais fácil, porque o alinhamento já estava mais ou menos feito…

O Chico tem uma carreira longuíssima e um número de canções impressionante. Como é que fez a seleção dos 16 temas que compõem este disco?
Essa é que foi a parte complicada! Complicadíssima, mesmo, como deve imaginar! Porque estamos a falar de mais de 40 anos de música e todos os discos que resultaram deles sempre com grande qualidade e com grandes sucessos. Foi um processo difícil e tive que pedir ajuda às pessoas que estavam mais próximas, incluindo o próprio Chico, para fazer esta seleção final. A coisa acabou por se resolver entre mim, o Chico, o Marcelo Gonçalves, que é o diretor musical do projeto, e o João Mário Linhares, que é o produtor executivo. Eu poderia ter feito 30 seleções de
músicas do Chico, cada uma com 16 músicas, e teria ficado satisfeito com o resultado de cada uma delas. Ficaram estas: depois da escolha final não vale a pena dar voltas à cabeça…

O título deste disco dá, de facto, a ideia de que sentiu estas canções como se elas fossem realmente suas: sentiu mais isso em relação a umas do que a outras?

Todas as músicas que foram gravadas foi como se tivessem sido apropriadas por mim, tanto a nível de arranjo como de interpretação, para lhes dar um cunho mais pessoal. Ou então o projeto não faria sentido, era preferível ouvir o original… É uma visão pessoal de parte da obra do Chico.

Os seus discos têm tido, quase todos, canções com graça, com alguma “pimenta” (o caso de ser apanhado de calças na mão, o Pica do 7, a sua conquista que leva o marido para o que seria um jantar a dois, etc.) e neste disco não temos isso…
Pois não… Porque, como lhe disse, as músicas foram escolhidas para tocar um bocadinho em toda a obra do Chico e tentar escolher, música por música, aquelas que fariam mais sentido. Não resultou ter sido escolhida nenhuma canção que puxasse mais para a risota, puro acaso.

Que cantores portugueses “desespera” para ouvir os novos discos?
Gosto muito da Ana Moura, da Carminho e do Ricardo Ribeiro. Estes no fado. Noutros géneros musicais sou muito fã do Miguel Araújo, do Samuel Úria, dos Deolinda, do Fausto, do Jorge Palma (que, aliás, acho que deve ser o maior compositor português de todos os tempos, ou dos maiores, na minha opinião), sou fã do Rui Veloso, dos Clã… Há tanta coisa! A música portuguesa atravessa uma fase muito positiva, na minha opinião. Gosto muito também do compositor Noiserv [um projeto musical de David Santos], um tipo de música mais experimental, mas de que gosto muito e que lançou um disco há pouco tempo. Ah, e a Joana Sá, que é uma pianista fabulosa!

Foi uma coisa épica, os concertos dos “újos” [António Zambujo e Miguel Araújo]… Esperavam que atingisse aquela dimensão?
Claro que não, ninguém esperava. Foi uma coisa surreal, que acontece uma vez na vida – e na vida só de algumas pessoas, note-se! Foram 27 concertos…

27? De certeza?
[risos] Tenho a certeza, tenho… Não, espere lá, eu corrijo: foram 28 Coliseus e depois fizemos três noites no Teatro Pax Julia, em Beja, a minha terra. Portanto foram mas é 31!!!

Um espetáculo ao vivo precisa de corpo e mente exercitados…
Não tenho exatamente um método, mas procuro fazer exercício físico todos os dias. E antes de começar gosto de estar com os músicos, em sossego. E ultimamente comecei a ter mais cuidados com a alimentação: mais saladas…

De que sente mais falta quando está fora, longe do país e da sua terra?
Aquilo de que sinto mais falta é das pessoas. Porque são elas que dão encanto aos sítios: o eu gostar do Alentejo, de Lisboa ou do Rio de Janeiro é por causa das pessoas que conheço nesses sítios.

Sabemos que está a almoçar em casa de Ney Matogrosso. Está a pensar gravar canções do Ney?
Não, mas convidei-o para ir cantar a Beja, à minha terra! E ele aceitou, de forma que em junho ou julho do próximo ano ele irá cantar a Beja.

Sendo pai de dois filhos, a época do Natal ganha outra importância. Como costuma festejá-la?
O Natal é uma altura boa, porque tiramos sempre férias: aí a partir de 18 de Dezembro paramos os concertos e só os retomamos no início de janeiro. Portanto, é uma época em que estou mais descansado, não estou preocupado com viagens e estou mais virado para a parte da família. Para a família e para rever amigos: normalmente há sempre um encontro de amigos de infância, fazemos sempre um jantar, agora já com as famílias, as mulheres, os filhos… É uma espécie de tertúlia, geralmente costuma ser a 22, 23. É, portanto, uma altura que serve para reencontrar os amigos mais antigos e para estar com a família.

E a sua festa, como é? Igual à das outras pessoas?
Completamente igualzinha, tudo normal. E é mais festa ainda porque a minha mãe faz anos a 24 de dezembro, de forma que já imagina, aquilo é festa em cima de festa.

Os seus filhos pediram-lhe alguma coisa para este Natal?
Ainda não e acho isso estranho… Mas vão pedir, com certeza. O mais velho já tem 17 anos e já não pede, mas o mais novo, que vai fazer seis em dezembro, esse vai pedir
de certeza.

O António é um alentejano que aprecia a cozinha alentejana? Qual o seu prato favorito?
Claro que sim! Muitíssimo! Como prato favorito, sopas de tomate, sem dúvida.

É pessoa para se “safar” na cozinha?
Nada, nada, nada… É uma das minhas maiores frustrações. Nem sequer é não ter jeito, é não me sentir motivado. Porque, na verdade, nunca experimentei e, se calhar, está aqui um talento culinário por descobrir!

Ia pedir-lhe uma receita, mas assim…
Espere lá! A receita da açorda dou-lhe, que é coisa fácil…Água a ferver, azeite e alho e pronto. Depois é deitar umas sopas de pão lá para dentro…


Respostas Rápidas

UM DISCO: Chega de Saudade, de João Gilberto.
UM FILME: Meia-Noite em Paris, de Woody Allen.
UM LIVRO: Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa.
O QUE MAIS APRECIA NOS AMIGOS? O facto de eles existirem.
QUE DEFEITO É MAIS FÁCIL PERDOAR? Acho que tudo tem perdão na vida.
COM QUEM GOSTARIA DE TOCAR? Gostaria de tocar um dia com os meus filhos.

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