Dificuldade:
Custo:
Tempo de Preparação:
Tipo de Refeição:
Ocasiões:
Chef:

Entrevistas

Ana Moura

home-slider-top

“Gosto da minha solidão, mas também sou muito festeira"

Como surge a música na sua vida?
A.M. Em minha casa sempre se ouviu música, se cantava e se tocava. Fausto, José Afonso, Ruy Mingas, música angolana e fado era o que se cantava nos serões e nas festas da família. Os meus pais cantavam, toda a família materna cantava e qualquer motivo de reunião familiar terminava com um festejo sob a forma de música. E eu ia ouvindo e absorvendo. Mais tarde despertei para outros tipos de música, mais condizentes com a minha idade e as amizades do tempo do liceu.

É aí que surge o grupo rock Sexto Sentido?
A.M. Não era bem um grupo de rock, era uma banda que tocava covers. Mas foi por essa altura que se pôs a hipótese de gravar um disco pop/rock, com o músico Luís Oliveira, mas ficou a meio e acabou por não ser lançado.

E o Fado? Onde aparece o Fado?
A.M. Sabe, isso foi um acaso… Se quiser, foi o Destino. Um dia fui com amigos a uma casa de fados e… cantei um. Houve quem tivesse gostado e mais tarde vou ao Senhor Vinho, da Maria da Fé: quando me ouviu, convidou-me a cantar lá.

Os seus discos têm sido sempre êxitos muito grandes…
A.M. Tenho tido essa sorte, sim, graças a Deus. Mas não sou só eu, muitos outros têm chegado a muita gente. Realmente, o tema Desfado foi um êxito enorme, há muito tempo que não se viam vendas assim de um disco de música portuguesa. Foi o disco mais vendido da última década, o que me deixa muito feliz.

Até que ponto acha que os seus contactos com Prince e os Rolling Stones contribuíram para a sua projeção?
A.M. Foram, sem dúvida, um contributo muito grande. Mesmo em Portugal, pessoas que ainda não me conheciam, quando souberam que havia uma portuguesa que cantava com eles tiveram a curiosidade de querer saber quem era. Mas também no estrangeiro, claro, e as pessoas que seguiam os Rolling Stones e o Prince ficaram mais atentas ao meu trabalho.

Os Búzios, de Jorge Fernando, também seu produtor desde sempre, terá sido um dos responsáveis pelo sucesso do álbum Para Além da Saudade, que havia de registar níveis inéditos na sua carreira. Mas chegou a um ponto em que cortou esse cordão. Porquê?
A.M. Quando estava a preparar o Desfado decidi mudar tudo: de músicos, de técnicos, de produtor e inclusivamente de manager. Mas em relação ao Jorge Fernando não considero que tenha havido um corte, o mesmo acontecendo com alguns músicos, que tenho continuado a convidar para os meus concertos. O que sucedeu foi que estive durante muitos anos “prisioneira” da produção do Jorge Fernando que, friso, foi uma colaboração fundamental para a minha carreira. Só que chegou um momento em que quis sentir que não era dependente de nada, são fases da nossa vida. As pessoas costumavam dizer: “ela tem esta linguagem, que é a linguagem, a composição de uma outra pessoa”. E aí decidi fazer um disco com produção de uma pessoa estrangeira e com compositores todos eles diferentes. Por acaso repito um em duas músicas, de resto…

Tem uma vida profissional muito ativa (amanhã estará em Bodø, na Noruega, por exemplo). Consegue ter tempo para ir a casa regar as plantas?
A.M. Nem me fale nisso, que ando sempre preocupada com os animais (tenho dois gatos, o Twiggy e o Fellini, que foram salvos), mas tenho uma pessoa que trabalha lá em casa e que me ajuda, bem como os meus pais que moram perto e que lhes dão os carinhos de que eles gostam tanto, e tratam das minhas plantas – porque eu tenho uma hortinha. Mas não é fácil, não...

Essa vida tão preenchida não ajuda a que organize aquilo que as pessoas fazem, que é a família, não é?
A.M. É e desse ponto de vista é terrível. Sobretudo para mim, que tenho imensa vontade em ter uma família. Mas vou sempre adiando e, por enquanto, está limitada aos gatos.

Mas gosta de estar com pessoas ou prefere estar metida no seu casulo?
A.M. Na verdade, gosto das duas coisas. Gosto muito do meu casulo e da minha solidão – escolhida, naturalmente, é a solidão que eu escolho. Mas também gosto muito de estar com pessoas e de festas, sou muito festeira… E gosto de estar com a minha família e com os meus amigos. Por outro lado, não posso esquecer que as pessoas que trabalham comigo constituem uma outra família, com quem gosto muito de estar também.


Nunca pensou em abrandar o número de digressões?
A.M. Tenho muita dificuldade, habituei-me e agora é-me difícil parar, sinto-me ansiosa… Mas no início deste ano tirei três meses e pensei que me fosse sentir muito nervosa com essa paragem. E depois cheguei à conclusão que aquilo passou num ápice e não fiz nenhuma das coisas que pensava fazer. Mas serviu-me para alguma coisa, essa paragem: agora já acho que posso abrandar e que não me sentirei mal com isso.

Se num espetáculo o público puxasse por si acha que o poderia prolongar por horas e horas, digamos assim?
A.M. Não creio que, por muito que o público puxasse por mim, fosse capaz de cantar durante todas essas horas. E explico porquê: é que perco mesmo peso em todos os espetáculos…

Não tem muito por onde perder…
A.M. [risos] Eu sei, eu sei… Os concertos são sempre muito intensos e não é preciso estar aos saltos para perder peso: a intensidade que se põe nas músicas é muito desgastante. Para não falar de que o Fado puxa muito mais pela voz do que outros géneros de música.

Tem algum ritual antes de entrar em palco?
A.M. Há algumas coisas que gosto de fazer: no momento em que me estou a maquilhar gosto de estar em silêncio, e depois gosto de cumprimentar os meus músicos antes de eles entrarem em palco.

Como os espetáculos são, apesar de tudo, longos e antecipados de viagens por vezes muito longas, cuida da sua forma física?
A.M. Devia cuidar mais, mas tomo atenção a algumas coisas. Os ares condicionados, por exemplo, e na medida do possível. Quando estou em aviões e aeroportos, claro, é impossível fugir-lhes. Mas quando viajo de carro ou carrinha com os músicos, eles ficam furibundos porque eu não deixo ligar o ar condicionado – e eles sofrem horrores com o calor. Bebo muita água e não faço aquele disparate de comer uma sopa quente e a seguir beber um refrigerante gelado. Mas sei que devia fazer mais exercício… Eu até tenho um personal trainer, mas com este ritmo de vida muito poucas vezes o vejo… Confesso-lhe uma coisa: eu privilegio mais o descanso!

Já vi que gosta de comer…
A.M. Adoro! É um dos meus grandes prazeres na vida. Sou magrinha mas isto é um engano: as pessoas não acreditam naquilo que eu como!

Tem pratos preferidos?
A.M. Tenho, pois! E são sempre aqueles mais fortes: adoro um bom cozido à portuguesa, uma bela feijoada, gosto desses pratos assim.

E sabe cozinhar?
A.M. Esse assunto é assim: adoro cozinhar e dou sempre o meu toque. Até já me disseram que tenho jeito… O que acontece é que como raramente pratico, com esta vida que tenho, acabo por perder a mão. Para se cozinhar tem que se praticar.

Portanto se lhe pedisse uma receita…
A.M. Ui, era muito complicado! Que quantidade disto, que quantidade daquilo? Seria difícil!

RESPOSTAS RÁPIDAS
UM CANTOR - Difícil eleger só um, mas escolho a Amália Rodrigues.
UM LIVRO - Siddharta, de Hermann Hesse.
UM FILME - A Vida É Bela, de Roberto Benigni.
UMA QUALIDADE - A persistência.
UM DEFEITO-  A ansiedade. Agora mais controlada, mas mesmo assim…
UMA VIAGEM DE SONHO-  São Tomé e Príncipe, onde já estive.
UMA PAIXÃO -  Animais.
COM QUEM GOSTAVA DE GRAVAR UM DUETO - Com Stevie Wonder.

Mais entrevistas