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Entrevistas

Ana Bacalhau

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"A minha filha vai-me fazer voltar a gostar muito do Natal"

Da última vez que falámos para esta revista, o seu nome não era Ana Bacalhau, mas sim Deolinda…
A.B. Para todos os efeitos, não é?

E de onde veio a ideia de se assumir, em Nome Próprio, Ana Bacalhau? Foram os Deolinda que a "trataram mal"?
A.B. Ah, não, coitados… Só tenho de dar graças por estar no grupo, porque foi o trabalho que fiz com ele (e com o grupo anterior, Lupanar) que me trouxe até aqui. Foram eles que me deram a confiança para me lançar em Nome Próprio. Porque foi com eles que aprendi muita coisa sobre música, sobre palco e até sobre mim. Eu mergulhei na personagem Deolinda, a encarná-la, porque era preciso para que as pessoas entendessem aquele universo, para que fosse coerente e credível. A partir do momento em que as pessoas entenderam o mundo Deolinda, achei que era altura de conhecerem também a Ana… Tal como o Pedro se mostrar como Pedro, o Luís mostrar o Luís e o Zé mostrar o Zé.

Só por isso, só para se saber que há vários músicos nos Deolinda?
A.B. Houve diversas experiências, incluindo uns concertos que fiz a solo, em 2013, em que peguei em canções e compositores que foram importantes no meu percurso e as trabalhei à minha maneira, de tal forma que comecei a sentir confiança suficiente para avançar para um disco fora dos Deolinda.

Portanto não foi exatamente um “Grito do Ipiranga”?
A.B. Ai, não, credo! Foi só uma forma diferente de me exprimir.

Até porque as canções do seu disco são diferentes das dos discos dos Deolinda…
A.B. Aí está. E isso era muito importante para mim: porque estar a fazer citações ou copiar o trabalho dos Deolinda não mostraria o respeito que eu tenho pelo legado do grupo, nem sequer seria bom para mim. Fazer um trabalho a solo só faria sentido se fosse para mostrar coisas e facetas que não estivessem nos Deolinda. No meu disco há muitas Anas que o público não conhece.

Desde essa altura em que falámos, os quatro, casou com o contrabaixista…
A.B. Pois foi… Mas já namorávamos há muito, muito tempo… Já se previa aquele desfecho, digamos assim.

E têm uma filha…
A.B. Verdade! A Luz, coisa mais linda!

E a Ana e o Zé, que fazem à música quando chegam a casa? Deixam-na à porta?
A.B. Nunca fica à porta, é impossível… De resto, a Luz já adormeceu muitas vezes ao som de eu a ensaiar com o Zé: ela no carrinho vai ouvindo, vai ouvindo… até que adormece. Esta vida que nós temos, ela há de partilhá-la connosco: vir connosco para a estrada, vai passar por muitos palcos e muitos ensaios de som, quando for um bocadinho maior há de ver os pais da plateia, tudo isso. Mas é óbvio que temos de criar um espaço que seja só dela na nossa vida e onde nós estejamos apenas para ela, onde ela sinta que tem os pais para si.

E ela é fofinha.
A.B. Ah ela é um amor! É uma Luz com sete meses e meio!

Acha que o casamento, a gravidez, a filha, o seu disco, a fizeram crescer como mulher?
A.B. Sem qualquer dúvida! Para já, dez anos de estrada com os Deolinda fizeram-me crescer como pessoa e como artista. Depois, senti-me confiante para avançar para um disco e, depois de o disco estar feito, senti-me realizada, porque acho que é um disco que me representa. E finalmente, a nível pessoal, o facto de ter gerado um ser humano e de estar a fazer com que esse ser humano vá criando o seu sistema de valores, de o ajudar a andar (nos dois sentidos!), este novo sentido de responsabilidade tem forçosamente que nos mudar. Esse amor profundo que se sente é óbvio que nos muda. E só pode ser para melhor.

Disse que andou dez anos na estrada com o grupo. Quando começarem as tournées sem eles, como vai ser?
A.B. Vou-me sentir órfã! Já pensei muito nisso e é uma coisa que me deixa com um friozinho na barriga.
A minha “casa”, a minha zona de conforto vai deixar de o ser: vou olhar para o palco e não vou ver o Luís e o Pedro… Vou ver o Zé, mas os outros não. Por outro lado, estou ainda a construir uma relação com os músicos que agora me acompanham, tanto de companheirismo como de cumplicidade, o que é fundamental para se andar na estrada e se tocar. Tudo isso me deixa cheia de nervos…

Neste disco tem temas de pessoas conhecidas. Quando começou a pedir, devem ter chovido canções… Como fez a seleção?
A.B. Este disco une algumas coisas que são importantes para mim. Para já, a miúda lisboeta, urbana; por outro, a miúda que ia passar os verões a casa da avó, na aldeia, e que tem esse lado rural acentuado por ter vivido as festas lá na terra, com o folclore e os ritmos tradicionais. Quis unir isso, bem como a matriz portuguesa, que é muito importante para mim, com a matriz anglo-saxónica, que é superimportante na minha vida. As canções para o disco tinham de ter alguns destes elementos… se não todos! Se houvesse uma canção onde eu não pudesse meter qualquer coisa de outras paragens ficava deslocada deste conjunto. Foi assim que fiz a seleção.

Falando de estrada: será possível termos em Loulé (ou outra localidade) à sexta um espetáculo da Ana Bacalhau e, domingo à noite, um espetáculo dos Deolinda?
A.B. Nós ainda andamos a tentar organizar as nossas vidas, até porque todos os restantes membros dos Deolinda vão
ter os seus próprios projetos a solo. Mas estamos a tentar arranjar as coisas de tal maneira que não seja necessário andarmos a mudar de chip constantemente, para não ser confuso nem para nós nem para o público.

Os outros dois membros encararam isto a bem?
A.B. Claro que sim! Como disse, todos têm os seus projetos: e essas experiências pessoais acabam por enriquecer os Deolinda. Todos consideramos que os projetos são bons para as pessoas, mas igualmente para o grupo. São aprendizagens que se somam.

As zonas periféricas de Lisboa e até a “outra banda”, são fontes de muitos grupos musicais e os Deolinda são um deles. Como explica essa riqueza?
A.B. Isso é fácil: eu acho que os arrabaldes são férteis em sugar experiências de todo o país e do mundo, são caldeirões onde caem milhares de influências, onde aparece a senhora que veio da aldeia e mantém os quadros na parede e os seus naperons, mas também o miúdo que quer ser hip-hop e já faz as suas rimas no recreio da escola… Temos imensas realidades distintas e que convergem para esses locais.

Foi único, aquele momento do Que Parva que Sou cantado no Coliseu?
A.B. Foi um momento irrepetível, muito intenso, que passou as fronteiras da música, foi uma coisa que falou fundo ao coração das pessoas e à realidade que estavam a viver naquela altura. E, se calhar, ajudou-as a perceber que eram muitas, unidas contra a mesma coisa.

Costuma dizer-se que há 1001 maneiras de cozinhar bacalhau: também há 1001 maneiras de “cozinhar” a Ana Bacalhau?
A.B. Deve haver… Pelo menos eu espero que haja 1001 maneiras de ouvir as canções deste disco e acho mesmo que é isso que este CD vai mostrar. Mas atenção: ele há 1001 maneiras de cozinhar bacalhau mas… não me esturriquem, que eu sou de signo escorpião!

Como vai ser este Natal, com uma nova Luz na sua vida?
A.B. Será especial, com certeza. Quero muito proporcionar à minha filha aquela excitação e magia que sentia nesta época natalícia quando era garota.

Que presentes tenciona oferecer-lhe?
A.B. Roupa, brinquedos e, sobretudo, muitos beijos nas bochechas.

Vai mesmo estragá-la com mimos?
A.B. Ai vou, vou… O mais possível! Estou ativamente a procurar fazê-lo! E sabe porquê? Porque ela se chama Luz Bacalhau Leitão: com um nome destes tem de ser muito mimada…

Esta é uma época que a deixa encantada?
A.B. Quando era miúda adorava, depois deixei de ligar tanto, apesar de passar os Natais com a família. Suspeito que a minha filha me irá fazer voltar a gostar muito do Natal.

A família reúne-se toda?
A.B. Dantes, sim. Era uma alegria ver a casa cheia de primos. Brincávamos até cair para o lado. Hoje, juntamos a família mais próxima.

Qual vai ser o menu da consoada?
A.B. Bacalhau, pois com certeza!

Agora vou-lhe pedir uma receita e não tem de ser de bacalhau…
A.B. Arroz de polvo, pode ser? É que eu adoro e é muito conhecido entre os meus comensais!

RESPOSTAS RÁPIDAS

UM DISCO? Pearl, da Janis Joplin

UM LIVRO? Crime e Castigo, de Dostoievaki

UM CANTOR? O meu coração divide-se entre Elis Regina e Amália Rodrigues

UM FILME? O Mundo a seus pés, de Orson Welles (1941)

UM LUGAR DE ELEIÇÃO? O Douro.

UMA VIAGEM DE SONHO? Já fiz: São Francisco

UM DEFEITO? Ai, tenho imensos. Sou muito explosiva.

UMA QUALIDADE? Grande capacidade de trabalho.

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