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A arte de bem petiscar

| Gourmets Amadores

16-02-2017 19:02

A mesa está posta para o almoço e a luz que entra pela janela ilumina um conjunto colorido de pratos e pratinhos, alinhados numa espécie de ritual mas sem ordem aparente. Ao centro, mais à esquerda, junto ao cesto do pão estão as azeitonas temperadas com orégãos e casca de laranja e à frente repousam meia dúzia de pastéis de bacalhau, um por cabeça. Ali ao meio, um pratinho de moelas faz sombra à salada de polvo, com a dose certa de salsa picada. Atrás, escondidos, uns carapauzinhos de escabeche, a perder protagonismo para o reluzente queijo de Nisa que pede para ser cortado. Ao lado, quase ao alcance da mão, esperam os adorados pastéis de massa tenra, leves e delicados. Dou por mim distraída da conversa, a olhar cada um destes petiscos e a pensar que não chega a hora de os provar. Valha-me o espumante que entretanto alguém faz o favor de me servir e que torna qualquer dia uma festa. E como há sempre algo a celebrar, todos os dias deviam ser de espumante.

Do almoço propriamente dito recordo pouco mas aquela mesa de petiscos fica inscrita na minha memória, numa cornucópia de emoções, sabores mil e o som das gargalhadas como banda sonora. Há algo de muito português nesta coisa de juntar à mesa amigos e partilhar pequenos pratos à boleia de um copo de vinho e dois dedos de conversa. A combinação é perfeita e está inscrita no nosso ADN de gente petisqueira que se emociona com um pastel de Chaves estaladiço ou faz quilómetros para ir comer leitão (que não por acaso se dá bem com o tal espumante). A arte de petiscar é essa apurada forma de estar, com a comida e o vinho a servir de pretexto para contar estórias de família, construir uma amizade única ou simplesmente escrever a história de um momento que se guarda para sempre. O meu petisco preferido está preso nas lembranças de infância e é revivido de cada vez que misturo farinha com água gaseificada, uma pitada de sal e outra de pimenta branca, até obter a cobertura certa para o feijão-verde escaldado e frito logo em seguida. Se os peixinhos da horta falassem contariam a minha vida em pratos de tempura, muitos e nunca demasiados, que na idade adulta se fizeram companheiros inseparáveis daquele verdelho que tem lugar cativo no meu coração.

Em jeito de honra ao petisco, escolha o seu predilecto, o que mais diz sobre si ou o primeiro que se lembrar. Abra um vinho de que goste e sirva alguém primeiro. Não há como partilhar um copo para salvar do esquecimento aquelas amêijoas à Bulhão Pato ou a cabeça de Xara que não vive sem pão alentejano. E bons petiscos!

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